Cantinho da MPB

Clube da Esquina (Terceira Parte)

DE BELO HORIZONTE PARA A AMÉRICA

Em 1967, o LP transformava-se em um bem de consumo viável, deixando aos poucos de ser um produto de elite, já que os compactos simples eram os líderes absolutos de vendas e veículos imprescindíveis no consumo massivo da música popular.

Os "long-plays" agora seriam espaço para o artista realizar trabalhos mais extensos, com ares de obra conceitual, narrativa e autoral, diluindo razoavelmente o caráter imediatista, de lucro fácil e volúvel artisticamente do compacto simples. Um exemplo desta tendência, no exterior, foi o lançamento de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", dos Beatles, até então especializados em lançamentos de "singles" (compactos) de sucesso instantâneo. Neste disco, o quarteto inglês usou e abusou de elementos eruditos e inovadores em sua música, transformando seu som dançante em propostas musicais conceituais e mais ousadas, impulsionados e dirigidos pelo maestro George Martin. No Brasil, exemplo semelhante é o já citado disco-manifesto dos Tropicalistas. Tal conceitualização e incremento só poderiam encontrar espaço no formato de LP. Em paralelo ao crescimento e afirmação do LP como bem de consumo viável, a indústria fonográfica conhece uma expansão inédita. Assim, as gravadoras vão buscar a formação de um elenco estável de artistas, investindo neles de forma a torná-los cada vez mais conhecidos. Como escreveu Márcia Tosta Dias, "É mais seguro e lucrativo manter um quadro de artistas que vendam discos com regularidade, nos padrões definidos para determinados segmentos, do que investir no mercado de sucessos que, por sua vez, precisa ser constantemente alimentado e, por mais que utilize fórmulas consagradas, não tem retorno totalmente garantido" .

Milton lançou seu primeiro disco por uma pequena gravadora, a Codil, que um tempo depois seria comprada pela CBS. Batizado de "Milton Nascimento", o LP revelou um intérprete eficiente, porém discreto, e um compositor primoroso que logo foi comparado a Edu Lobo no estilo. De fato, Milton não arriscou muito neste primeiro trabalho, preferindo vestir suas canções com arranjos tradicionais inspirados nas toadas de Edu, com reflexos da bossa nova e levemente jazzísticos. Mas as canções eram clássicas, fortes, melódica e harmonicamente complexas, e certamente deram pistas do talento de Milton e de sua necessidade de encontrar uma roupagem própria em trabalhos futuros. O LP trazia "Travessia", parceria com Fernando Brant, ´'Três Pontas", com o novíssimo parceiro Ronaldo Bastos, "Crença", "Irmão De Fé" e "Gira Girou" com Márcio Borges, e temas de composição e letras próprias como "Morro Velho" e "Maria Minha Fé", entre outras.
Na América e na Europa, o "flower power" conquistou a mídia com "hippies" pregando paz e amor. Jovens deixaram a casa do pais buscando novos valores para seus relacionamentos políticos e sociais. Além disso, o uso indiscriminado de drogas como a maconha e o LSD provocavam uma "abertura" da consciência para "nova percepção" da realidade. Tais iniciativas tinham como líderes "gurus" indianos e psicólogos ocidentais como Timothy Leary. Paralelamente a tudo isso, movimentos política e socialmente mais organizados buscavam o reconhecimento de grupos até então marginalizados, como os negros, homossexuais e ecologistas, entre outros tantos. Os trabalhadores da indústria em geral também conquistavam seus direitos através de sindicatos mais fortes e organizados, coisas que só teriam efeitos similares no Brasil uma década depois...

A música era o pano de fundo destas transformações todas. Não só com Os Beatles e seu LP revolucionário, mas também com o aparecimento de Jimi Hendrix, Eric Clapton, The Who, Rolling Stones, Janis Joplin e tantos outros. Muitos estavam deixando de fazer do rock um ritmo apenas dançante, mas igualmente inovador. E com a ajuda das drogas alucinógenas, tornou-se mais "cerebral", mais rigoroso e musicalmente mais complexo do que era até então. Nos "undergrounds" americanos e ingleses, novos músicos de jazz começaram a experimentar a fusão deste gênero com o rock, criando a chamada "fusion". Miles Davis, um dos grandes ídolos de Milton, Toninho & cia, saberia captar tal tendência e a levar ao disco dois anos depois . Neste processo, músicos importantes começaram a se fazer notar: John McClaughlin, Larry Coryell, Herbie Hancock, Wayne Shorter (estes dois últimos admiradores e futuros colaboradores de Milton), Jack de Johnette, George Benson e Keith Jarret, entre outros. Muitos destes artistas desenvolveriam nos anos 70 um estilo de jazz semelhante (e muito) à música do "Clube da esquina'', principalmente o guitarrista Pat Metheny, um declarado seguidor de Bituca e Toninho Horta.

"Milton é uma coisa totalmente nova, ele não tem nada a ver com bossa nova. É um clássico, mas com ritmos totalmente desconhecidos. Ainda não descobri que impulso rítmico é este que ele dá à sua música. É uma coisa nova, misteriosa, intrigante e instigante", comentou Deodato na ocasião, quando mostrou a música de Milton à um dos vários produtores que visitavam o Rio em busca de "um novo João Gilberto ou um novo Tom Jobim". O interesse foi imediato, apesar da evidente diferença de estilo do mineiro em relação aos mestres da Bossa. O produtor em questão era Creed Taylor, nome respeitado no meio jazzístico em Los Angeles, que revelara entre outros o guitarrista George Benson. Assim, na mesma ocasião em que o AI-5 era decretado no Brasil, Milton deixou o país rumo ao México, onde realizaria algumas apresentações, partindo em seguida para os Estados Unidos. Em Los Angeles, acompanhado por Eumir Deodato e Creed Taylor, o compositor gravou seu LP americano numa situação um tanto constrangedora, já que não possuía autorização para trabalhar na terra de Tio Sam. O disco foi lançado pelo selo A&M Records no início de 1969, sendo chamado de "Courage". Neste trabalho, algumas canções do LP brasileiro ganharam arranjos novos e letras traduzidas para o inglês, além do tom jazzístico e suavemente inspirado na bossa nova, numa clara intenção de conquistar o público americano que admirava Tom Jobim e João Gilberto. Apesar disso, a marca pessoal do autor é inquestionável: "Lá está a vida de Minas, a circunspecção do nosso povo, a herança cultural do interior, o ritmo polidividido do "Vera Cruz" deslizando sobre os trilhos, em compassos complexos, tal como ele e eu ouvíamos naquela arenazinha que existe atrás dos vagões de passageiros, tantas vezes fomos ao Rio de trem; tudo se encontrava e entornava na voz bailarina e no violão pontilhado do meu bom Vituperatus ... Para o mercado americano, acostumado a pôr rótulo em tudo, Bituca iria representar um desafio. Poderiam simplesmente chamá-lo de Milton" , relatou Márcio Borges.