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NOITE CHEGOU OUTRA VEZ: OS ANOS DA REPRESSÃO
Com
o AI-5, calam-se quase que totalmente as vozes de protesto. A censura
invade a televisão e o rádio, e aqueles que ainda
não haviam sido presos recolheram-se ao silêncio. Os
líderes tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil foram
presos em São Paulo, e enviados para um quartel do Rio De
Janeiro. Depois foram para Salvador, onde ganharam liberdade restrita
àquela cidade. Então, gravaram as bases de seus novos
discos e partiram para Londres. O tropicalismo como movimento de
impacto na mídia morreria aí, porém sua música
sobreviveria nos trabalhos de Gal Costa, Tom Zé e Mutantes,
apesar do boicote sofrido pelos dois últimos por parte das
gravadoras, que não divulgavam seus trabalhos de maneira
possível a popularizá-los. A ala mais "séria"
da MPB também sofreu baixas, com o exílio voluntário
de Chico Buarque na Itália e ida de Edu Lobo aos Estados
Unidos, onde também gravou com Creed Taylor e Eumir Deodato,
seguindo os passos de Milton.
Para
a música brasileira, subitamente apunhalada pela pela perseguição
à seus principais ídolos, restou a roleta russa de
uma indústria fonográfica ávida por descobrir
novos mercados e novos artistas que pudessem suprir a ausência
daqueles que agora ou estavam fora, ou tinham estratégicamente
desaparecido da mídia televisiva. A canção
de protesto - que tinha em Geraldo Vandré seu maior expoente
- chegava ao final, juntamente com os movimentos e "torcidas"
estudantis. Na verdade, novos códigos e formas de expressão
teriam de ser descobertos pelos artistas auto-denominados de "resistentes",
como o próprio Milton.
Nesta
fase, a fusão entre as grandes gravadoras começou
a se transformar em uma tendência que se concretizaria na
década seguinte. A primeira fusão de impacto no mercado
nacional foi a compra da Odeon pela inglesa EMI, em 1969. Grandes
fusões já haviam sido realizadas desde 1928, quando
a própria EMI comprou a Pathé francesa e a Columbia
e Gramophone inglesas. A RCA fez o mesmo com a Victor no ano seguinte,
tal qual a CBS americana com a Columbia na América. Em 1937,
a Polydor compraria o selo Deutsche Grammophon (famoso por lançar
gravações de música erudita), a Telefunken
e a Siemens. Fechando este primeiro ciclo de fusões, a Phonogram
comprou a Grammophon francesa e a Philips em 45. No final dos anos
60, a indústria do disco obteve um forte desenvolvimento
em mercados locais como o Brasil. Márcia Tosta Dias: "A
prospecção de mercados locais firmou-se como forte
estratégia para a expansão da indústria fonográfica
mundial. No entanto, vale notar que essa explicação
é evocada também pela indústria em sua própria
defesa, quando sua expansão é qualificada de imperialista
ou neocolonialista" . Isso porque, quando as chamadas multinacionais
se instalaram em outros países do mundo, acabaram por veicular
mercadorias culturais produzidas em seu país de origem, a
ponto de desfigurarem algumas tradições locais. Tal
ponto de análise - muito comum em críticos do imperialismo
norte americano dos anos 60/70 - deixa de considerar o fato de que,
para desenvolver-se, as multinacionais também se utilizam
dos artistas locais e suas referências, estimulando a produção
nativa e ampliando o seu campo de trabalho. Diante de uma "internacionalização"
das normas de mercado, o mesmo país que recebe a mercadoria
estrangeira tem os mesmos caminhos para difundir sua cultura e mercadorias
a outros países. Apenas alguns anos depois esse processo
se traduziria na supremacia da produção nacional em
nosso país.
Em
1969, as gravadoras estavam buscando a formação de
um cast fixo de artistas nativos, mas ainda era muito mais barato
importar lançamentos de fora. Para alguns, tal fato era conseqüência
da censura imposta aos astros da MPB, mas por outro lado os artistas
censurados também atraíam vendas de seus discos, por
serem vistos como "mártires". As companhias souberam
captar essa reação, e assim continuaram a investir
em compositores/intérpretes dessa linha. Mas é importante
ressaltar que com as vendas de produtos estrangeiros que exigiam
apenas alguns escritos em português nas capas -que vinham
prontas de fora- e a prensagem dos discos, as multinacionais conseguiam
um volume de lucro bem mais graúdo que as gravadoras nacionais,
que tinham de arcar com gastos de produção, prensagem,
arte das capas e tudo o mais. Esse processo seria acentuado no decorrer
dos anos 70, e já nos 80, poucas seriam as empresas nacionais
em condições de disputa no mercado.
Milton,
agora da multinacional EMI-Odeon, era um artista considerado de
elite, um autor que teria no LP seu veículo mais apropriado,
bem como todos os compositores de sua geração. O disco
americano foi lançado aqui pela nova gravadora, mas alguns
meses depois, o segundo disco brasileiro chegaria às lojas.
Neste ano, Roberto Carlos já era o artista mais popular do
país. A Jovem Guarda deu origem a um estilo mais romântico
e apelativo, abusando de temas que exploravam o imaginário
popular, o que se chamou mais tarde de "música brega".
Na chamada MPB "de elite", artistas como Elis, Vinícius
de Moraes, Toquinho, Marcos Valle, Maysa, Carlos Lyra, MPB 4, Edu
Lobo e tantos outros seguiram com suas carreiras sem maiores novidades.
Na música instrumental, artistas como Egberto Gismonti e
Hermeto Pascoal - este último vindo do Momento Quatro, grupo
que revelou instrumentistas do porte de Airto Moreira e Heraldo
do Monte e que acompanhava Edu Lobo - tentavam conquistar a confiança
das gravadoras e deixar a marginalidade que o gênero sofre
até hoje.
Um
outro estilo musical de qualidade estava conseguindo furar esse
bloqueio, através de Jorge Ben e Tim Maia, este último
recém-chegado da América: o Soul. Apesar de Jorge
ter causado impacto com seu "Samba/rock" e Wilson Simonal
ser um grande vendedor de discos criando um estilo swingado e inspirado
no gênero americano, Tim Maia trazia consigo a experiência
de anos vividos nos Estados Unidos e um "feeling" inédito
em sua interpretação, bem mais fiel tanto no vozeirão
poderoso como no visual claramente copiado dos artistas da Motown
americana. Tim veio no embalo da crescente distribuição
dessa música no Brasil, e na conseqüente necessidade
das gravadoras descobrirem um similar nacional. Para se ter uma
idéia do sucesso da "soul music" nesta ocasião,
até Roberto Carlos experimentou tal tendência em seu
disco de 1969, gravando tema do próprio Tim Maia. Elis Regina
fez o mesmo com seu LP do ano. Para terminar, havia o samba de Jair
Rodrigues, Paulinho da viola e Elizeth Cardoso, além do que
restou dos tropicalistas ( Tom Zé, Mutantes, Gal e os discos
de Caetano e Gil, agora exilados e distantes). Chico Buarque vivia
um momento de hesitação, gravando um LP irrelevante
na Itália, onde experimentou um fracasso de público
em suas raras apresentações.
O
novo LP de Milton Nascimento foi um marco em sua carreira e também
nas de seus colegas mineiros. Primeiro, porque trouxe uma música
bem mais pessoal e inovadora, traduzindo perfeitamente os sentimentos,
as vivências e influências locais. Segundo, porque abriu
as portas para as participações dos amigos Toninho
Horta (que tinha uma canção sua, "Aqui, ó",
em parceria com Fernando Brant, gravada pela primeira vez em disco),
Hélvius Villela, Nélson Ângelo e Robertinho
Silva. Também participaram músicos experientes como
Paulo Moura, Eumir Deodato, Maestro Gaya, Luiz Eça, Maurício
Maestro, Novelli e claro, o velho amigo Wagner Tiso. O LP chamado
apenas de "Milton Nascimento" trouxe canções
como "Sentinela", "Beco Do Mota" e ''Quatro
Luas", entre outras.
Este trabalho também pode ser definido como a transição
da influência da bossa nova e das toadas da fase anterior,
para temas mais próximos do folclore mineiro, dos temperos
da música barroca de acento religioso.
A
cena cultural de BH permanecia ativa, mesmo com a repressão
à movimentos estudantis e a exclusão da capital mineira
do eixo Rio-São Paulo no que diz respeito à movimentação
do mercado fonográfico brasileiro e da exposição
de artistas em âmbito nacional. Pequenos (mas barulhentos)
festivais eram realizados, assim como shows que reuniam os artistas
com certa freqüência, como os batizados de "Fio
da Navalha". Neles, músicos e compositores de diversas
tendências possuíam espaço para apresentar seu
trabalho. Um deles, Flávio Venturini, havia estudado música
erudita e popular com a mesma dedicação, e chamava
a atenção dos colegas por sua habilidade ao piano
, revelando-se também um bom compositor.
Mas
enquanto Venturini tendia para o rock, outro novato chamado Tavinho
Moura resgatava com leveza e sensibilidade comoventes a música
que se fazia nos campos, o folclore da "Festa de Reis"
e a música inspirada nos cânticos religiosos. Tudo
com um senso melódico forte e cristalino. Beto Guedes e Lô
Borges cresciam como pessoas e como músicos, mas acima de
tudo como compositores. Toninho Horta estava sempre presente, agora
portando uma guitarra elétrica e experimentando novas tendências
que uniam a bossa, o jazz e o rock de Jimi Hendrix. Tavito também
era figura tarimbada no meio artístico belorizontino. Enfim,
havia um cruzamento de idéias e estilos que no final, acabaram
por unir essas pessoas em torno de um lugar comum: fazer boa música.
Eles já possuíam uma espécie de líder
natural, um mentor musical e desbravador que era Milton Nascimento.
As
citações deste texto são extraídas em
sua maioria do livro “Os Sonhos Não Envelhecem-Histórias
do Clube de Esquina”, de Márcio Borges.
Em breve, a continuação da historia do CLUBE DA ESQUINA
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