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UM
ESTRANHO NO NINHO ou A SÍNTESE DA MÚSICA OCIDENTAL
Marcelo
Sanches
No
último dia 4 de dezembro, completou-se 11 anos de desaparecimento
de Francis Vincent Zappa, ou, como ficou mais conhecido no mundo
da música popular norte-americana, Frank Zappa, filho de
pai italiano e mãe grega, nascido em Baltimore, Maryland,
no ano de 1940. Justamente por estar sempre remando contra a maré
dos modismos e pela força de suas opiniões e convicções,
ele colecionou inimigos e boicotes.
Desde
cedo, Frank, o mais velho de quatro filhos, mostrou-se inconformado
com a vida medíocre e limitada da família. Aos 13
anos, antes da explosão do rock & roll junto à
classe média americana, o garoto adorava ouvir Stravinsky,
Webern e principalmente, Edgar Varèse, um compositor erudito
francês radicado nos EUA e considerado por muitos críticos
um dos primeiros autores a transcrever para a música e ritmos,
as angústias do homem moderno. Em suas obras, Varèse
transformou em instrumentos musicais peças do maquinário
das grandes indústrias como sirenas, bigornas e martelos,
desenhando assim ritmos e efeitos percussivos que inovariam para
sempre os limites da experiência sonora. Desenvolveu-se também
no terreno da música eletrônica.
Frank
estudou harmonia e regência musicais depois de tentar dedicar-se
à química, mesmo ofício do pai. Aos 22 anos
de idade, escreveu sua primeira peça erudita, chamada de
Opus 5. Montou seus primeiros grupos de rhythm & blues em Cucamonga,
nos arredores de Los Angeles, para onde mudou-se no início
dos anos 60. Foi proprietário de pequenos estúdios
de gravação, até ser preso certa vez sob acusação
de compor trilhas sonoras para filmes pornográficos.
Em
1964, formou o Mothers of Invention, com grandes músicos
como Roy Estrada e Ian Underwood, entre outros. Este grupo o levaria
à fama nos anos seguintes e seus membros foram em comunidades
freaks de LA, na verdade um bando de criaturas excêntricas
e inspiradas no anarquismo, que chamavam a atenção
pelo visual que unia o fake ao grotesco. Dessa gente, Zappa &
grupo herdaram um estilo teatral e cômico em seus espetáculos
de rock, inaugurando uma interação dos músicos
com a platéia até então inédita no mundo
pop, e que seria uma das primeiras marcas dos Mothers. Em 1966 gravaram
seu primeiro álbum, o duplo Freak Out, um trabalho diferente
e repleto de inserções de música eletrônica
e jazz, bem como letras bem humoradas e totalmente críticas
à vida “vazia e inócua” da América.
Mesmo
a relativa fama inicial não desviou Zappa de sua essência
transgressora. Era um estranho no ninho. Não no sentido vulgarizado
pela mídia, que fabricou modelitos tão ‘rebeldes’
e ‘revolucionários’ quanto os jeans, a minissaia
e os hippies dos anos 60; mas porque era autêntico, sabia
do que falava, tinha conteúdo, acreditava no que defendia,
e por isso mesmo, não encontrava muitos adeptos entre os
roqueiros, e muito menos entre artistas mais conservadores e com
a mídia em geral. Imaginem um músico de rock em plenos
anos 60 criticando os hippies e as drogas, ao mesmo tempo em que
zombava dos valores do american way of life e dos costumes políticos
e pseudo-liberais da democracia americana, embora alguns de seus
algozes o considerassem um tanto diplomático e cauteloso.
Sua metralhadora giratória e suas letras completamente desbocadas
e malcriadas não poupavam governantes nem adeptos de movimentos
jovens que carregavam a bandeira da contravenção e
da rebeldia.
O
que ele criticava, de fato, era o que considerava uma cilada da
indústria cultural, que embalava os artistas e os vendia
como ícones de uma suposta revolução de valores
e costumes, quando na verdade não passavam de indivíduos
ingênuos ou de megalomaníacos vaidosos. Zappa não
se transformou num usuário das drogas e detestava seus propagadores,
pois enxergava nestes rituais psicodélicos uma forma de dominar
e anestesiar a juventude, transmutando-a em um aglomerado de pessoas
sonolentas e improdutivas, bem como um caminho para a violência
banal e sem objetivos. Com o que se viu em Altamont com os Stones
em fins de 69 e com a disseminação das drogas pesadas
nos anos 70 podemos concluir que ele não estava errado, afinal.
Nem
os Beatles escaparam das críticas desse ousado e atrevido
músico. Em 1968, Frank lançou We’re Only In
It For The Money (estamos nessa apenas pela grana), disco que além
do título irônico, trazia uma música debochada,
rica em melodias sinuosas e complexas o bastante para provocar uma
sensação de estranheza no ouvinte, apesar de se utilizar
de uma instrumentação bastante comum na ocasião.
Era a antítese do romantismo beatle e da idéia de
paz e amor hippies. Em “Who Needs The Peace Corps?”
ele cantava “Quem precisa dos voluntários da paz?”.
Em “Mom And Dad”, parecia propositadamente acrescentar
uma visão mais áspera àquela narrada na sentimental
“She’s Leaving Home” dos Beatles, ao contar o
final trágico da menina que sai de casa em função
da mediocridade dos pais. Na capa, reproduzia a idéia da
foto do famoso Sgt. Pepper’s, trazendo os músicos da
Mothers Of Invention vestidos de mulher em frente à um grupo
que incluía a figura de Jimi Hendrix (que Zappa admirava).
O restante das “pessoas” eram bonecos dilacerados com
expressões faciais perturbadoras, sob um céu carregado
por raios e nuvens negras, um contraste com o colorido e com os
rostos felizes da capa dos Beatles. Paul McCartney protestou e a
gravadora de Zappa teve que mudar a foto para o encarte interno.
Nos
anos 70, Zappa passou a gravar discos como artista solo, alternando-os
com trabalhos dos Mothers. Com isso, sentiu-se livre para aproximar-se
ainda mais do jazz e da música instrumental, trabalhando
com músicos como George Duke, Jean-Luc Ponty e Captain Beefheart,
este último um velho amigo de infância. Sua música
foi aprimorando-se magnificamente, ganhando uma consistência
e uma amplitude que extrapolavam qualquer possibilidade de rótulo,
enquanto seu trabalho com o Mothers Of Invention continuava a mesclar
teatro do absurdo e diálogos com a platéia com a música.
Em junho de 71, John Lennon e Yoko Ono estavam em NY e foram à
um show dos Mothers no Fillmore East. Ao final, Zappa os convidou
para uma espetacular versão de “Baby Please Don’t
Go”, com um excelente vocal de Lennon e um dos solos mais
poderosos de Zappa registrados em fita.
Seus
arranjos foram ficando cada vez mais complexos e estranhos, e ele
manipulava com enorme facilidade e naturalidade estilos díspares
como o atonalismo, dodecafonismo, serialismo, música concreta
e eletrônica, além do jazz e da musica erudita. Chegou
a ter suas peças regidas por Zubin Mehta e Pierre Boulez.
Em 76, produziu um LP para o Grand Funk, único trabalho do
conjunto a não alcançar os 10 primeiros lugares das
paradas. Praga?
Zappa
nunca conseguiu viver em paz com as várias gravadoras que
lançaram seus discos. Tanto que em 1979, depois de romper
contrato com a Warner e processá-la em 6 milhões de
dólares, lançou um seu selo próprio, o Barpking
Pumpkin, inaugurando-o com uma ópera-rock brilhante, que
reproduzia o histórico de sua evolução musical:
Joe’s Garage.. Trata-se de uma obra imprescindível
não apenas por sintetizar os vários gêneros
musicais explorados por Zappa, mas igualmente pelo fato de radiografar
em suas letras a complexa relação da juventude com
o mundo do consumismo, denunciando mais uma vez a alienação
e a massificação do mau gosto e da pobreza mental
que ele tanto odiava, não apenas na música, como na
cultura política e artística em geral.
Como
instrumentista, era um virtuose na guitarra, inventando solos em
escalas bem mais variadas e atípicas daquelas costumeiras
pentatônicas repetidas ad –infinitum pelos demais guitarristas
de rock. Preferia escrever solos audíveis e de traços
sinuosos à provocar estridência e dedilhados rápidos
que disfarçavam o limitado conhecimento teórico dos
guitarristas de sua geração ( em termos de rock &
roll, claro): “Quando as pessoas tocam guitarra de modo competitivo,
executando solos e dedilhados de forma rápida, isso pode
parecer brilhante para uma competição olímpica,
mas não vejo conteúdo musical algum nisso”,
disse ele à Guitar Player em 1987. Acredita-se que Zappa
tenha abandonado a guitarra por estar ‘de bronca’ com
os rumos adotados pelos demais guitarristas, e também por
sentir que o instrumento havia se tornado obsoleto para suas criações.
Fãs argumentam que ele tinha tantos calos nos dedos, que
não viu outra alternativa a não ser deixar de toca-la.
O fato é que em meados dos anos 80 o músico despediu
todos os antigos companheiros de banda –gente boa como Steve
Vai, Ray White e Chad Wackerman. Assim, passou a dedicar-se ao synclavier,
um computador que bem manipulado, reproduz os timbres de centenas
de instrumentos. O disco “Jazz From Hell”, de 86, foi
sua primeira experiência construída inteiramente com
esse novo recurso, embora tenha soado um tanto frio em relação
à seus trabalhos com banda. Apesar disso, ganhou um grammy
como melhor disco de jazz do ano, um dos raros momentos de reconhecimento
da grande mídia à um trabalho de Zappa.
Sua
derradeira experiência musical em vida não teve sua
presença entre os executantes, e foi com o disco The Yellow
Shark, inteiramente gravado com a Ensemble Modern, grupo baseado
na Alemanha cuja principal relevância era adicionar elementos
sonoros característicos de uma orquestra sinfônica
à uma instrumentalização mais popular, com
banjos, guitarras e órgãos elétricos. Já
debilitado pelo câncer de próstata, o compositor só
compareceu à um dos quatro espetáculos realizados
pelo grupo, justamente o que deu origem ao disco. Antes disso, no
entanto, ele ainda sentiu-se apto a candidatar-se à presidência
da república! Desistiu da idéia ao perceber que dificilmente
iria muito longe, pois teria que convencer gente que detestava a
apoia-lo. Finalmente, o trabalho de Zappa acabou sendo reconhecido
e homenageado por uma alta esfera governamental, ao ser nomeado
Embaixador da Cultura pelo presidente da República Tcheca,
Vaclav Havel, em junho de 1991.
Em
4 de dezembro de 1993, o mundo perdeu Francis Vincent Zappa, que
deixou viúva Gail Slotman Zappa, com quem foi casado desde
1966, e quatro filhos: Moon, Dweezil (que transformou-se num grande
guitarrista), Ahmet e Diva. Foi um artista raro e de impecável
qualidade, um dos maiores compositores que a música popular
norte americana já possuiu, e que provavelmente vai ganhar
notoriedade e devido reconhecimento anos e anos após seu
desaparecimento, num processo semelhante ao ocorrido com grandes
mestres da música ocidental como Bach, Mozart e o próprio
Varèse. Seu legado é um arquivo valioso para a posteridade
e um documento indispensável para a formação
da memória musical da humanidade. Além disso, foi
um crítico visceral da estupidez e da inconsciência
humanas. |