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Indústria
fonográfica: crise ou necessidade de transformação?
Marcelo
Sanches
Volta e meia nos deparamos com reportagens ou estatísticas
assombrosas a cerca da crise da indústria fonográfica.
Empresários e executivos ligados às chamadas majors
–EMI/Virgin, WEA, Universal, BMG, Sony Music, responsáveis
por 90% do mercado consumidor de discos- vem a público esporadicamente
para acusar a pirataria em CD-R ou a tecnologia dos arquivos em
MP-3 de serem os algozes das gravadoras, que de fato experimentam
uma queda generalizada de vendas de CDs em todo o planeta, e com
igual intensidade no Brasil. Por aqui, a queda estaria na casa dos
52% acumulados nos últimos anos.
A
cobra morde o rabo
O
discurso de crise torna-se um tanto contraditório, porém,
quando analisamos um pouco mais de perto as ações
das grandes companhias diante dos avanços de outras mídias
que veiculam a música gravada. Primeiro, porque insistem
em desprezar a nova realidade do consumo e da cada vez mais avançada
troca de informações, realidade esta representada
pelos arquivos em MP-3 e pela Internet. Depois, porque acusam única
e exclusivamente a pirataria de ser a principal vilã da queda
das vendas. Esquecem-se de que são elas mesmas produtoras
de novas mídias que proporcionam esses meios de reprodução
ilegal? Será que a cobra finalmente está mordendo
o rabo? O feitiço estaria virando contra o feiticeiro e o
monopólio estaria sendo ameaçado por seu próprio
desenvolvimento tecnológico?
CD-R,
MP-3, Internet: os"vilões"
Vamos
começar pelo formato de CD-R, a mídia mais usada pelos
pirateiros que copiam os discos originais; entre os fabricantes
estão a Philips e a Sony, que além dos CDs-R também
produzem softwares, computadores e gravadores de CD que evidentemente
constituem equipamento primordial para a cópia dos produtos
oficiais. O CD-R exclusivo para áudio da Philips (braço
eletrônico da Universal) vem com um dispositivo que impede
a cópia digital de um gravador para outro, alem de ter embutido
em seu preço os royalties que (dizem) vai para editoras,
artistas e as próprias gravadoras, o que pressupõe
um acordo de cavalheiros entre todas as empresas. Apesar disso,
o produto referido não consegue impedir a cópia se
ela for realizada através do processo analógico. Torna-se
necessário, porém, lembrar que o papel vivido hoje
pelos CDs-R como fonte de reprodução ilegal de música
foi protagonizado nos anos 70 e 80 pela antiga fita k-7 (também
produzida por empresas ligadas às gravadoras), sem que esta
tenha provocado tanta polêmica quanto o seu similar digital
atual, não impedindo também o crescimento da indústria
fonográfica no Brasil, que em 1978 computava 15% positivos
–o dobro da taxa de crescimento industrial no mesmo período-,
fazendo do Brasil o sexto mercado consumidor mundial e o país
escolhido para sediar uma reunião de federações
mundiais de produtores de disco naquele ano. O vilão daqueles
tempos era o petróleo, matéria prima que encarecia
os produtos e provocava inflação. Paradoxalmente ao
que era previsto pelos analistas econômicos, contudo, o que
se viu foi que com o desenvolvimento do hábito de se permanecer
em casa –em função da redução
forçada de gastos-, a classe média passou a consumir
mais discos, até então um produto barato em comparação
à outros bens de consumo. Além do mais, as fitas k-7
eram um recurso para se ouvir música no carro ou em espaços
que não o de casa, e naturalmente era necessário comprar
o disco para depois grava-lo; a qualidade do áudio de uma
fita dificilmente suplantava o do disco de vinil. Hoje, a situação
é bem diferente, pois temos a Internet e um enorme avanço
tecnológico que transformou radicalmente os meios de comunicação,
reduzindo o espaço e a distância entre o produto gravado
e o seu consumidor. Se antes havia um deslocamento físico
entre a minha casa e a loja de discos do bairro, hoje esse processo
foi aniquilado. Pela primeira vez em sua história, a indústria
da música vê-se num impasse, pois não conseguiu
ainda desenvolver uma tecnologia e uma legislação
suficientes para barrar a moderna troca de informações
representada neste caso pelos downloads ilegais em MP-3, que na
América do Norte provocaram a queda vertiginosa dos antigos
singles.
A resposta da indústria aos downloads ilegais até
agora foi tímida. Modelos de distribuição oficial
de música pela Internet, como o I-Tunes (da Apple Computers)
e sites das próprias gravadoras, oferecem ainda poucas músicas
consideradas de ‘ponta’, oferecendo apenas uma espécie
de ‘gancho’ para convencer o consumidor a comprar o
disco. Apesar de estarem à quilômetros de distância
do que é baixado ilegalmente , o número de downloads
oficiais é bastante satisfatório, apontando um horizonte
novo que poucos executivos da área, no entanto, conseguem
enxergar. As maiores distribuidoras paralelas de arquivos musicais
–Kazaa, Morpheus, entre outras- já se ofereceram para
entrar em acordo e também para criarem possíveis parcerias
que viessem a minimizar o impacto da pirataria digital, mas as majors
permanecem irredutíveis em não afrouxar as amarras
e dividir seu monopólio, fazendo com que a briga descambe
pelos tribunais afora, chegando ao ridículo de, nos EUA,
abrir processos contra crianças de 12 anos de idade que baixam
arquivos pela rede.
Adaptação
inevitável
No
38* MIDEM, encontro dos maiores produtores de discos do mundo realizado
no último dia 28 de janeiro em Cannes, na França,
a conclusão final foi a de que é urgente a adaptação
da indústria à era digital, com previsões realistas
que adiantam o fim do CD como mídia distribuidora de musica.
Entre as causas desta transformação inevitável,
está, alem da piratariaem CD-R, a localização
do jovem consumidor –aquele com menos de 30 anos de idade-,
que não compra mais discos com o objetivo de acompanhar uma
obra conceitual ou um trabalho autoral mais apurado; a crescente
velocidade da troca de informações e a característica
efêmera das relações midiáticas atuais,
além do desemprego, fizeram com o que o jovem –em outros
tempos consumidor de compactos simples e singles- encontrasse na
Internet o modelo ideal para satisfazer sua fugaz necessidade de
consumir um hit ou dois.
Banalização
da música
Não
nos esqueçamos também da excessiva massificação
da música popular, que transforma bailarinos, cantores precoces
e corpos esculturais em artistas da música, deslocando o
seu sentido como arte e estética para segundo plano, em benefício
de rostinhos bonitinhos e roupas engomadas e da vida pessoal das
estrelas. Em outras palavras, o jovem consome mais atitudes e posturas
com as quais se identifica do que exatamente a música como
manifestação artística, e isso a jornalista
e crítica Ana Maria Baiana expôs com precisão
em um artigo recente, chamado "O Dia Em Que A Música
Rachou", publicado em julho do ano passado no site "Comunique-se".
Vendem-se atitudes e modos de vida, categorias sociais que tem na
música uma de suas marcas, ao lado de roupas e estilos de
penteados. Para confirmar que não se trata de simples coincidência,
basta consultar o site da ABPD –Associação Brasileira
dos Produtores de Discos- e constatar que a MPB melhor trabalhada,
gênero que ainda comporta uma produção mais
direcionada ao lado estético, poético e possivelmente
‘conceitual’, vendeu apenas 8% do total consumido no
ano de 2001. O pop/rock romântico e o sertanejo, estilos sempre
presentes nos programas de TV e em emissoras de rádio mais
populares, renderam 44% desse bolo.
Novos
rumos e acordos
Esses
indicadores apenas apontam para o óbvio: é preciso
uma adaptação à nova lógica de relações
sociais, midiáticas e mercadológicas. Se o jovem é
consumidor ativo do MP-3, nada mais prático do que criar
uma alternativa que venha a abastecer as expectativas mais específicas
desta faixa etária (até os 30 anos), oferecendo repertório
mais completo em condições viáveis. Para tanto,
é absolutamente necessário dar as mãos ao ‘inimigo’
neste momento, ou seja: entrar em acordo com a Sharman Networks,
empresa australiana de softwares que controla o Kazaa, por exemplo,
que já se disponibilizou para um possível entendimento
amigável com as majors. As vantagens de uma nova forma de
comercializar música via Internet seriam muitas. Vejamos:
em primeiro lugar, não se investiria tanto dinheiro em artistas
de qualidade duvidosa, criando assim um meio de testar sua duração
no mercado, pois a produção poderia se limitar à
algumas canções consideradas de apelo mais comercial
que não exigiriam a confecção de um álbum
inteiro para se jogar na praça. Há sempre uma ou duas
músicas de real sucesso mesmo num CD de um artista bem popular;
as gravadoras poderiam reduzir seus custos ao produzir essas duas
canções e comercializá-las em MP-3, impedindo
ao mesmo tempo que se pirateasse o CD todo, como hoje é prática.
Em segundo lugar: haveria uma verdadeira democratização
dos meios de divulgação da música em geral,
pois diversos artistas –independentemente de estilos- poderiam
usar dessa redução de custos e conseguir maior espaço
junto às grandes gravadoras para divulgar seu trabalho com
maior amplitude, ganhando o apoio dos departamentos de marketing
das majors e da mídia em geral, pois os custos estariam ‘enxugados’
dos longos períodos em estúdios e de tudo o que envolve
hoje a confecção de um disco inteiro e sua distribuição.
As gravadoras estariam mais próximas de um formato de um
site do que propriamente de gravadoras, e selos menores que hoje
lutam arduamente para sobreviver dentro dos 10% restantes do mercado
encontrariam também maiores condições de organizarem-se
e investirem em novos nomes, já que ainda dependem das maiores
distribuidoras para divulgar seus produtos. O Brasil ainda tem,
certamente, um número de internautas bem pequeno em função
da pobreza e do acesso zerado dos jovens das faixas mais pobres
à rede. Mas acordos com entidades públicas e ONGS
poderiam ser feitos no sentido de oferecer a Internet gratuitamente
à essa faixa desprezada pela lógica de mercado, em
espaços públicos como bibliotecas e escolas das redes
municipais e estaduais, o que poderia acontecer através de
sistemas de redução de impostos e leis de incentivo
envolvendo as gravadoras. Por que não? Uma das causas alegadas
para o alto preço dos CDs não é justamente
o excesso de carga tributária? Uma outra alternativa seria
também oferecer ao consumidor a oportunidade de montar seu
próprio CD, baixando do site da gravadora as faixas que lhe
interessarem, montando assim sua própria coletânea,
como já o fizeram alguns sites como o Music Maker.com nos
EUA, que no entanto não ganhou divulgação o
suficiente para transformar-se em opção consistente.
Vale acrescentar que nestes casos, a permanência do formato
CD-R torna-se fundamental. Produzindo esta mídia e inserindo
em seu preço final os direitos autorais e os pagamentos dos
profissionais envolvidos, as gravadoras certamente não sairiam
perdendo. O CD-R seria então uma mídia de apoio à
veiculação e distribuição de música
pela Internet, principalmente aos consumidores de classes sociais
mais desprovidas e carentes, que não possuem computador em
casa. Pela recusa das majors em debater com os softwares de MP-3
sobre um possível entendimento entre as partes é que
esse processo já se difunde, mas de maneira ilegal e injusta
para com músicos e artistas em geral. É claro que
tal negociação dependeria de acordos e arranjos totalmente
inéditos que teriam que ser discutidos entre as várias
classes que participam da realização de um produto
fonográfico hoje: músicos de estúdio, compositores,
produtores, técnicos, fotógrafos, artistas gráficos
e demais profissionais envolvidos. Alguém duvida que, se
unidos em um comum acordo que beneficie todas as partes -- o consumidor
e os artistas, as gravadoras e as empresas de softwares de MP-3--
uma solução será encontrada? Insistir no oposto
desta tendência que o MP-3 e a Internet oferecem é
investir, repito, na pirataria e numa limitação viciosa
de espaços, que acaba proporcionando uma expressão
vulgarizada por interesses que são sempre limitadores da
música como manifestação de legítimas
tradições regionais e de uma arte com alta qualidade
artística e estética, empobrecendo-a e banalizando-a.
Se a mídia bombardeasse menos o consumidor procurando mante-lo
sempre sob controle, como acontece há tempos, e apostasse
ao contrário numa democratização da oferta,
poderíamos ter uma diversidade maior, que com certeza traria
benefícios incalculáveis para a divulgação
e realização de trabalhos musicais. Tudo isso, repito,
envolve uma vontade política de todas as partes, e cabe perfeitamente
aqui a afirmação de que não são apenas
os executivos e empresários os responsáveis pela ‘crise’
(prefiro dizer ‘necessidade de mudança’) que
infelizmente, produziu até aqui mais choradeira do que soluções
práticas, mas também uma grande parte dos músicos
e compositores brasileiros, que talvez estejam mais concentrados
em seus umbigos do que nos possíveis consumidores de sua
arte, mais acomodados em sua fama e vaidade no que na chance que
seus talentos oferecem para que colaborem com a transformação
do mundo em algo mais prazeroso e justo, senão o próprio,
pelo menos esse da indústria fonográfica.
mscavazza@ig.com.br
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