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A
DITADURA DA IDEOLOGIA DO CONSUMO
Marcelo
Sanches
Para
a introdução do tema a ser discutido neste artigo
– o consumo da música popular -, vou me remeter à
uma entrevista concedida há um ano atrás pelo nosso
querido Caetano Veloso ao “Jornal da Globo”, em que
ele respondia ironicamente aos comentários de seu colega
Lobão, que segundo consta, havia declarado dias antes que
a classe média só gosta de ouvir músicas consideradas
“bregas” depois que Veloso as grava. Até escrevi
sobre o tema na ocasião. Mas agora gostaria de apresentar
uma outra perspectiva, um outro ângulo analítico.
O
compositor baiano dizia que acha ridículo o rótulo
“MPB de elite” e que sempre odiou este termo, que considera
preconceituoso. Se Lobão faz de seus comentários uma
oportunidade para aparecer e ganhar espaço na mídia,
certamente segue um expediente comum nesse meio, incluindo-se aí
o próprio Caetano. Mas daí a este último dizer
simplesmente que ‘‘MPB de elite” seja um termo
preconceituoso não comporta a complexidade dos fatos. O buraco
é mais embaixo, como se diz no jargão popular. Antes
de qualquer coisa, temos que afirmar uma questão simples:
é inegável que existem diferenças estéticas
dentro do que se classifica como musica popular.
A
bossa nova - a música que mais influenciou Caetano no final
dos anos 50- imprimiu a sofisticação do jazz americano
ao samba carioca, enriquecendo a música popular brasileira
com harmonias mais complexas e um canto mais delicado. O termo “MPB”
surgiu alguns anos depois, já na década de 60, para
classificar a nova música engajada que se praticava no meio
estudantil dos grandes centros urbanos para combater a então
recém- decretada ditadura militar. E o que era essa música?
Nada mais que uma união de ritmos nordestinos (como o baião
e as toadas) com o requinte harmônico e melódico da
bossa, com letras combativas dirigidas às questões
sociais que tanto afligiam o país, deixando de lado as narrativas
açucaradas da classe média carioca, que eram as características
dos temas bossa-novísticos anteriores.
O
encontro de tendências mais sofisticadas com uma música
mais regional e culturalmente mais enraizada na população
pobre do nordeste não resultou, como sabemos, numa produção
de má qualidade, mas sim num dos períodos mais férteis
da música nacional. Quando o Tropicalismo invadiu os festivais
de televisão depois de 1967, uma novo sopro de criatividade
assolou a MPB com as ondas elétricas do rock and roll, causando
muitos protestos. Mas o que se viu (e ouviu) depois foi sua total
assimilação.
A
jovem guarda, considerada uma influência decisiva nos trabalhos
de Gil, Caetano, Mutantes, etc, era na verdade a reprodução
do trabalho mais banal e vulgar do rock produzido pelos Beatles
& cia até aquele momento. Os próprios ingleses
transformaram sua música dançante e seus temas juvenis
em peças populares mais ousadas e complexas quando imprimiram
ao seu trabalho uma grande dose de música erudita e de novas
técnicas de estúdio, através do maestro George
Martin. E essa foi a mais notável influência roqueira
no som tropicalista, e também porque esse pessoal estava
cercado por gente do calibre de um Júlio Medaglia e de um
Rogério Duprat.
Portanto,
mais uma vez tivemos um notável resultado qualitativo que,
misturando um número variado de influências populares
(não impostas pela indústria do disco e de natureza
autêntica), de um lado, com uma música mais rica e
refinada, de outro, levou a MPB a caminhar para frente. A jovem
guarda, por sua vez, acabou se transformando em um formato ainda
mais pobre esteticamente, além de um produto que instigava
o imaginário popular a limitar-se em questões banais
e preconceituosas, ressaltando suas deficiências e carências
culturais. E tais características ganharam reforço
nos anos posteriores, quando a ditadura militar expulsou os grandes
artistas e reduziu os espaços para a prática de uma
música mais combativa social e politicamente, fazendo com
que as gravadoras buscassem guarida (e maiores lucros) em dois tipos
de produto: na continuação desta mesma Jovem Guarda
através da banalização ainda maior de seus
temas, e na música internacional, que dispensava gastos com
profissionais locais.
O
resultado foi um crescimento significativo da indústria fonográfica.
E é aí que a discussão de Caetano e Lobão
deixa de considerar fatores e variáveis indispensáveis
numa análise mais profunda da questão.
Existem
várias abordagens possíveis do assunto. Se formos
nos concentrar na questão estética da música
popular enquanto arte e transformação de fórmulas
(ou como o próprio Caetano se referiu em outros tempos, sua
‘linha evolutiva’), não há como comparar
–como já demonstrei acima- o que se denomina de “MPB
de elite” (esse termo já é um rótulo
imposto pelo mercado de discos então em crescimento) com
a música mais simples e massificada (a “brega”).
Mas se nos fixarmos na música enquanto objeto de consumo,
o tema torna-se mais denso e complexo.
Importa
aqui, primeiro, entender os mecanismos que levam à uma segmentação
da música popular enquanto objeto de consumo e sua manipulação
pela indústria do disco. Se Caetano Veloso por acaso pretende
defender a tese de uma possível igualdade estética
da MPB, talvez esteja desprezando não só que os ouvidos
mais atentos percebem, mas também uma característica
visceral do capitalismo na qual se insere o consumo da música:
os critérios de valor de um objeto (ou disco) consumido.
Hoje, como já há tempos, a música é
um produto que ressalta diferenças, e num espaço mais
microscópico, uma relativa igualdade do indivíduo
ao grupo com o qual ele se identifica. No que diz respeito ao mercado
fonográfico brasileiro, podemos observar que – a exemplo
do que ocorre em economias desenvolvidas- existem diferentes “guetos”
de consumidores aos quais são dirigidos certos produtos,
tendo em vista as desigualdades sociais e a caracterização
da música como objeto de consumo simbólico, instituído
por signos que ressaltam as diferenças não apenas
de poder aquisitivo, mas também e principalmente de estilos
de vida, opções políticas, de vestimenta, atitudes,
etc. Como qualquer outro objeto que é consumido, a música
é hoje um equivalente de uma linguagem e de diferenciações
sociais. Não é consumida em massa pela sua estética
ou qualidade evolutiva, técnica ou formal, mas pelo que simboliza.
Neste contexto, pode ter diversas funções: desde uma
distinção do indivíduo de seu habitat social
até sua inclusão nele.
Mas
como ressaltou o sociólogo francês Jean Pierre Baudrillard,
o indivíduo acredita estar se diferenciando ao consumir determinado
produto, quando na verdade está apenas se submetendo a um
condicionamento de diferenciação e de obediência
a um código estabelecido, daí resultando a relativa
igualdade a que me referi mais acima. (Baudrillard, Teoria do Consumo,
pág. 84). Seja no que diz respeito às diferenças
de classes sociais ou em termos de gostos pessoais, a sociedade
se alimenta das desigualdades, embora seu discurso pseudo-democrático
a coloque como uma união de propósitos igualitários
e de erradicação das diferenças.
Baudrillard
afirma também que o consumo não deriva pura e simplesmente
do trabalho da publicidade, não é um excesso, mas
sim a extensão natural do processo produtivo, uma etapa posterior
e imprescindível à produção de bens
e objetos, um processo que garante a sobrevivência do sistema
industrial. Ao produzir a máquina/força produtiva,
produz o capital e a força produtiva racionalizados, que
por sua vez provocam a necessidade de maiores investimentos e de
circulação de mercadorias. Com isso, temos a força
de trabalho assalariado, a força produtiva abstrata (que
se difere do trabalho tradicional e concreto) e finalmente, o sistema
de “necessidades”. Entende-se então que cada
etapa está direta e inexoravelmente ligada à outra
(Baudrillard, Teoria do Consumo, pág. 109).
Chegamos,
desta maneira, em um ponto crucial para a compreensão do
consumo enquanto processo do sistema produtivo: o objeto consumido
não tem uma relação direta com o indivíduo,
mas é um elemento deste sistema produtivo, uma sistematização
racional das forças produtivas ao nível individual.
Diante disso, verificamos que na verdade não importam muito
as diferenças dos objetos consumidos, desde que eles cumpram
uma função que está ligada de fato às
lógicas sociais e do inconsciente coletivo, onde estabelecem
um significado simbólico: “Não é determinante
a função individual de interesse através de
um conjunto de objetos, mas a função instantaneamente
social de troca, de comunicação e de distribuição
de valores através de um conjunto de sinais” (Baudrillard,
Teoria do Consumo, pág. 115).
Desta
feita, ainda segundo o pensador francês, nunca haverá
uma satisfação plena do desejo do indivíduo
em sua relação com um dado objeto (seja ele qual for),
e muito menos uma necessidade verdadeira, mas sim a busca do desejo
de sentido social que o objeto traduz naquele momento específico
em que ele é adquirido. Baudrillard, entretanto, não
vislumbra saída: o infinito e inesgotável vazio da
alma humana e sua incalculável dimensão estariam na
raiz desta engrenagem que jamais se findará, fazendo com
que nunca, em tempo algum, o consumo deixe de se impregnar no cotidiano
dos indivíduos.
Se
ele estiver certo, podemos compreender com exatidão o motivo
de as classes melhor informadas assimilarem uma canção
de Peninha (considerado um ícone da música cafona)
quando a mesma é gravada na voz de um expoente do que se
considera MPB de elite; trata-se de uma clara transfiguração
de um objeto esteticamente inferior em outro diferenciado. E apesar
do maior cuidado e apuro dos arranjos desenvolvidos pelos músicos
de Caetano Veloso para sua versão de uma canção
“brega”, sabemos que o produto comprado pelos fãs
do baiano com temas até então desprezados por eles
é outro, diferente da música. Trata-se do status adquirido
pela imagem de Veloso e o que ele representa simbolicamente como
valor de troca e afirmação dentro do contexto hierárquico
social.
Outro
exemplo interessante observado nos anos 40 e 50 do século
passado dentro da indústria fonográfica mundial foi
a gravação de peças sinfônicas e eruditas
(até então consumidas com exclusividade pelos ricos
e poderosos) em arranjos que usavam elementos da música popular,
do jazz e até do rock and roll, desenvolvendo um gênero
que foi rotulado de “easy listening” (fácil audição),
cujos maiores expoentes eram maestros e orquestras como Mantovani,
Franck Pourcel, Paul Mauriat e Boston Pops, entre outros.
Pode-se
ouvir nestas gravações versões da Nona Sinfonia
de Beethoven executadas em faixas de 4 minutos de duração
por guitarras, contrabaixo, bateria, saxofone e xilofone, além
da orquestra propriamente dita. Foi a maneira encontrada pela indústria
para satisfazer as necessidades de uma classe média em ascensão
em parecer tão prestigiada e culta quanto as classes altas
que consumiam discos de música clássica e freqüentavam
concertos. Tudo devidamente adaptado aos padrões de rotina
de trabalho desta classe média, que não possuía
tempo nem disposição para apreciar peças musicais
de uma hora de duração, mas sim para versões
standartizadas de três ou quatro minutos, como já frisei.
Uma
afirmação realmente preconceituosa seria a de que
o povão jamais terá capacidade para apreciar uma boa
produção musical. Cairíamos num erro grosseiro
se afirmássemos que a indústria serve o que lhe é
“requisitado”. As opções, na verdade,
são impostas de cima para baixo. O tal “povão”
poderia ter oportunidades, como qualquer um de nós, “pessoas
estudadas”, de apreciar um concerto para piano e orquestra
de Mahler. Com isso, sabemos que o grande acinte que se comete contra
a música popular e contra as pessoas de uma maneira geral
é o entupimento de seus ouvidos com tanto lixo de consumo
fácil e imediato, que é o trabalho da publicidade,
do “jabá” e de outras técnicas de massificação.
Do
ponto de vista sociológico, podemos supor que a população
mais pobre é vítima não apenas da pérfida
lógica de consumo, mas antes, daquilo que produz esta lógica:
políticas públicas, econômicas e sociais com
interesses restritos à sua elite e conservadoras no sentido
de realimentar permanentemente este círculo vicioso, fazendo
crer que o consumo –seja do que for e tenha a qualidade que
tiver- é o termômetro que irá definir o seu
grau de igualdade e satisfação de suas necessidades.
Talvez
por estarem relativamente conscientes desta estrutura, os executivos
do disco excluam a maioria da população da possibilidade
de assimilar uma linguagem cultural mais rica e informativa, simplesmente
porque é mais barato vender pencas de produtos de baixa qualidade
do que preparar a sociedade para consumir artigos mais ricos em
informação e que de alguma forma acelerem o desenvolvimento
humano na direção de uma melhor conscientização
da vida social e individual. Neste caso, acabamos caindo na obviedade:
uma discussão verdadeiramente profunda desta banalização
dos valores culturais –como a MPB, por exemplo- nos leva para
uma questão bem mais abrangente, que é a precariedade
da educação pública no Brasil e o acesso limitado
ao ensino de qualidade, que privilegia a poucos. Assim sendo, uma
produção musical refinada, como tudo que possui bagagem
e consistência informativa, permanece mesmo nos limites da
elite.
LIVRO
UTILIZADO PARA ESTE TEXTO:
BAUDRILLARD, Jean Pierre. O sistema dos objetos. São Paulo:
Perspectiva, 1973. |