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GEORGE HARRISON : O DISCRETO ARTESÃO POP
Por
Marcelo Sanches
Esta época do ano é sintomática para os beatlemaníacos.
Em 29 de novembro de 2001, George Harrison; e em 8 de dezembro de
1980, John Lennon. É desnecessário entrarmos em detalhes
circunstanciais de suas passagens logo no início deste texto,
mas o fato é que parece estranho que duas pessoas que sempre
nos pareceram imortais (e o são, de certa forma) e que nos
presenteiam ainda com suas canções e vozes todos os
dias, não estejam mais compartilhando da mesma atmosfera
que nós. No entanto, a herança mais preciosa para
os fãs são as canções e os discos, mais
do que qualquer outra coisa.
No
caso de Harrison, me deu vontade de ouvir suas canções
de forma retrospectiva, atentando-me assim à sua evolução
como compositor e músico.
GEORGE HARRISON, UM BEATLE (1961-1969)
A
primeira canção em disco de George apareceu no obscuro
LP que os Beatles gravaram em Hamburgo, em 1961, acompanhando Tony
Sheridan em algumas faixas. Eles tiveram oportunidade de registrar
dois temas sem o cover de Elvis Presley, e um desses temas era “Cry
For A Shadow”, parceria de Harrison com Lennon!
Essa
canção instrumental revela apenas que eles estavam
buscando inspiração nos Shadows, craques da época
em interpretar as melodias com uma guitarra ainda sem pedais e recursos
tecnológicos, o que os obrigava a serem precisos nas notas
e fieis ao tema melódico; não havia recurso teórico
para improvisos e variações sobre o tema, como faziam
os jazzistas, mas ainda assim era imprescindível que se tocasse
de forma límpida, pois não existia a sujeira de um
pedal overdrive ou um chorus para disfarçar a limitação
técnica com efeitos mirabolantes. Um outro grande mestre
do jovem Harrison foi Carl Perkins, de quem seria um grande amigo
tempos depois. Essa foi a escola de George em seus primeiros anos.
Com o passar do tempo e com a necessidade de ampliar o repertório,
os Beatles tocavam por horas e horas, e foi natural que tivessem
que inventar seu próprio estilo de tirar a música
de seus instrumentos. Como tocavam quase tudo -rock and roll, twist,
rockabilly, rhythm ‘n’ blues, baladas de jazz e até
boleros-, seu material para compor ganhou amplitudes diferenciadas,
pois John e Paul não se restringiam às cadências
habituais de três acordes para abrigar suas melodias, usando
variações harmônicas um pouco mais complexas
e encadeamentos um tanto estranhos ao rock and roll básico.
Para acompanhar essa demanda musical, eles tiveram que crescer como
músicos, como ressaltei. Foi nesta fase, entre 60 e 62, que
Macca assumiu o contrabaixo (Stu havia saído) e adquiriu
uma técnica peculiar (poucos cantam e tocam contrabaixo com
tamanha segurança), enquanto John e George assumiam as guitarras.
O Velho Ringo, então, entraria no lugar de Pete Best. Quem
compara os dois, verá que Starr era um metrônomo, além
de um baterista mais criativo que Pete, que por sua vez demonstrava
uma hesitação rítmica evidente.
Se
Lennon fixou-se na base rítmica, ficou para Harrison a missão
de fazer a diferença nos solos e em complementos timbrísticos
diferentes da guitarra do colega, pois seria pouco enriquecedora
uma execução musical com dois instrumentos fazendo
a mesma coisa. Quando Lennon tocava um lá maior mais grave
e básico, George tinha que tocar o mesmo acorde uma oitava
acima (ou com inversões de acordes) para que a reprodução
da música ganhasse um colorido vibrante. Para solar, George
passou a executar uma técnica interessante: os blocos de
notas e tríades. Seus solos eram centrados nos acordes, e
não tanto em escalas pentatônicas ou quaisquer outras.
Um exemplo: “All My Loving”. Isso não quer dizer
que ele não soubesse realizar solos sem o recurso de dedilhar
as notas de um acorde; “Till There Was You” tem um dos
solos mais bonitos de Harrison na primeira fase EMI dos Beatles.
Ali já tínhamos um guitarrista com estilo próprio
e delicado e um compositor em vias de arriscar seu primeiro vôo.
“With
The Beatles” é um disco crucial na primeira fase do
grupo. Afinados, afiados e entrosados, os quatro jovens músicos/compositores
estavam na dianteira do pop, abrindo caminhos. Foi neste álbum
que George gravou sua “Don’t Bother Me”, segunda
canção a aparecer em disco com sua assinatura. Mas
podemos considerá-la a primeira, já que em “Cry
For A Shadow” ele dividiu a criação com John.
Harrison sempre se referiu à “Don’t Bother Me”
com certo desdém, chamando-a de “simplória”.
Não se trata de um clássico, óbvio, mas é
um tema melodioso e agradável, que mostrou na ocasião,
que o guitarrista principal dos Beatles estava aprendendo o ofício
com eficiência. Afinal, tinha ao seu lado dois magníficos
colegas compositores e um maestro que entendia de musica como poucos,
Sir George Martin.
Durante
1964, George pouco arriscou em compor, pois ainda não havia
adquirido confiança suficiente. Já em 65, no disco
“Help!”, eis que surgem duas lindas composições
de sua autoria: “I Need You” e “You Like Me Too
Much”. A primeira é um tema melódico belíssimo,
com uma melodia secundária que traz uma solução
de passagem (quando se volta de uma segunda melodia para a principal)
um tanto estranha ao pop, ou seja, não tão óbvia
como se podia esperar (a parte que diz “...and feeling like
this/ i just can’t go on anymore”). A segunda, mais
próxima do estilo Lennon/Mccartney, é outra pérola
de composição melódica forte e inspirada. Meses
depois, em “Rubber Soul”, Harrison apareceu ainda melhor
com “Think For Yourself” (com uma harmonia vocal que
judiou de John Lennon durante as gravações) e “If
I Needed Someone”, até então sua melhor composição
e uma concretização do guitarrista como compositor.
Como músico, George havia inserido no universo timbrístico
do rock o som da Rickenbacker de 12 cordas no álbum “A
Hard Day’s Night”, em 1964, com um dedilhado suave que
inspiraria grupos como os Byrds, por exemplo. Com a explosão
de guitarristas mais agressivos e rápidos como Eric Clapton
(seu grande amigo), Jeff Beck, Pete Townshend, Jimi Hendrix e tantos
outros, ficou evidente que ele, George, ficaria de fora da categoria
de “guitarrista de rock”, pois continuava solando de
forma singular, sem efeitos ‘sujos’ ou muita velocidade
no seu jeito de tocar. Seus solos eram considerados “tímidos”
perto daqueles que se faziam na época, pois continuavam privilegiando
a melodia e as notas secas, além dos tradicionais dedilhados
de acordes. Foi uma espécie de definição de
sua identidade no mundo da música pop; o guitarrista George
Harrison estacionaria um pouco, deixando até que alguns solos
mais rápidos ficassem sob responsabilidade de Paul McCartney
(em “Ticket to Ride” e em “Taxman”), mas
o compositor George Harrison crescia vertiginosa e incontrolavelmente.
E de forma brilhante.
Vários
fatores colaboraram para tal: os Beatles estavam cheios de tocar
ao vivo para ninguém escutar (a gritaria era absurda) e com
isso apegavam-se cada vez mais ao estúdio para suas experiências
musicais. De fato, ao vivo, eles estavam medíocres, tocando
mal seus instrumentos e errando acordes e harmonias vocais com freqüência
cada vez maior (ouçam “Day Tripper” no show do
Japão em 66 e sintam o drama).
George
havia encontrado na sítar indiana (é sua a primeira
gravação do instrumento na musica popular, em “Norwegian
Wood”) o caminho não apenas para a música daquele
país, mas para sua filosofia de vida. Ele seria um dos principais
responsáveis pela guinada dos Beatles, e de certa forma,
da juventude da época em direção à meditação
transcendental e ao psicodelismo no rock. As letras das canções
de George deixaram de versar apenas sobre tolas aventuras românticas
juvenis, e passaram a centrar-se mais em questões mais profundas
e existenciais: a dificuldade de relacionar-se dos casais (em “I
Want To Tell You”) e às críticas ácidas
e irônicas ao establishment (o pesado rock “Taxman”).
Musicalmente,
aproximou-se não apenas da sonoridade indiana, mas igualmente
do uso de escalas musicais tradicionais naquela região (“Love
You To”). A harmonia de “I Want To Tell You” traz
acordes menores dissonantes com quintas diminutas , sétimas
e nonas e um clima sombrio, algo incomum nas canções
pop da época. Todas essas faixas aparecem no “Revolver”,
o definitivo divisor das águas da musica popular ocidental.
George passa a ter aulas com o mestre Ravi Shankar, que além
de seu professor, seria seu grande amigo até os dias finais.
O alegre, despretensioso e feliz ‘beatle’ caçula,
portanto, começava a se transformar, acenando para uma personalidade
mais forte, madura e peculiar, musical e filosoficamente. Os Beatles,
para ele, estavam se transmutando em um modo de vida castrador e
sufocante. Publicamente, Harrison deixava de parecer apenas um moçinho
bem humorado e engraçadinho, para deixar sua verdadeira personalidade
saltar às vistas: discreto, mais sério e um tanto
sarcástico, ele não perderia o bom humor jamais, mas
mostraria-se cada vez mais avesso à publicidade, buscando
privacidade e procurando ser uma pessoa mais reservada. A diferença
estava plantada.
Em
“Pepper’s” Harrison teve apenas uma canção
incluída no set, “Within’ You Without You”,
uma continuação da idéia musical de “Love
You To”, mas com letra bem mais reflexiva e intimista, externando
a proximidade cada vez mais intensa do guitarrista com a filosofia
hindu/indiana. Através dele, os Beatles foram ao Maharishi,
na Índia, e voltaram repletos de canções para
o famoso álbum Branco. Antes disso, George gravou seu primeiro
disco solo, resultante de um convite para que compusesse a trilha
sonora do filme psicodélico “Wonderwall”, no
início de 1968. Inteiramente instrumental e gravado nos estúdios
da EMI em Bombaim, esse LP é uma mescla sonora da musica
indiana com o rock, uma espécie de extremidade do psicodelismo
que os Beatles imprimiam em suas canções desta fase.
George pouco tocou no disco, e teve grande auxílio dos músicos
nativos na formatação dos arranjos e idéias.
Algumas faixas, como “Red Lady Too” e “Wonderwall
To Be Here” são temas curtos, porém dotados
de uma beleza doce e melancólica, características
cada vez mais presentes no estilo de Harrison. O ápice de
sua paixão pela musica e filosofia indianas aparece com os
Beatles em “The Inner Light”, lado B de “Lady
Maddona”, faixa gravada nos mesmos dias de “Wonderwall”.
Tais
estilos configuraram-se com extrema beleza em suas canções
do disco duplo. “While My Guitar Gently Weeps” fez com
que Lennon, McCartney e Martin se tocassem de que havia um novo
grande compositor dentro do grupo; nesta faixa, Harrison usou a
simplicidade de uma seqüência harmônica comum para
criar uma melodia celestial, melancólica ao extremo, um pano
de fundo perfeito para uma letra um tanto desesperançosa
(“Eu olho pra todos vocês/ e vejo que o amor está
adormecido/ enquanto minha gentil guitarra chora”). O solo
nesta faixa é do amigo Eric Clapton, em um dos momentos mais
grandiosos da história do rock and roll. Eric fez a guitarra
soar como um verdadeiro choro emocionado. Arrepiante!
“Piggies”,
é uma paródia do consumismo, lembrando que “em
todos os lugares existem porcos/ vivendo vidas de porcos/ levando
suas porcas esposas para jantar/ afiando facas e garfos para se
fartarem de bacon”. Era o humor sarcástico de Harrison
em ação. Esta faixa começou a ser escrita dois
anos antes, e teve uma ajuda de Lennon e de Louise, mãe de
George, na letra (ele gravaria uma versão desta musica com
a parte da letra escrita por John nos concertos no Japão,
em 91). Sua melodia é linda, ganhando como contorno um arranjo
inspirado na escrita musical de Bach, com direito a harpsichord.
“Long
Long Long” marca o início da devoção
de Harrison à religiosidade explícita; “Savoy
Truffle” é uma de suas canções mais interessantes
dentro dos Beatles, ao fundir um arranjo jazzístico de saxofones
com um acento rock, em cima de uma melodia em tom menor. Infelizmente,
a gravação da faixa –bastante comprimida no
processo final de mixagem-, prejudica um pouco sua audição.
Depois do Álbum Branco, Harrison começou a requisitar
maior espaço para suas canções nos discos do
grupo. O conflito ganharia ares de ruptura alguns meses depois,
durante as filmagens de “Let It Be”, quando George aborreceu-se
com Paul e John e deixou o estúdio com a intenção
de não mais voltar. Convencido pelas circunstâncias
e com a promessa de que os Beatles não tocariam ao vivo como
planejava McCartney para o projeto em andamento (ele era contra
tal idéia), George voltou.
A
estas alturas, ele possuía uma bagagem incrível de
canções. Na verdade, desde 1966, quando aproximou-se
da cultura oriental e adquiriu maior autonomia criativa, Harrison
passou a compor com freqüência. Em princípios
de 1969, seu reduzido espaço nos Beatles estava longe de
atender a demanda de composições. George havia ampliado
mais ainda seus horizontes ao aproximar-se de Bob Dylan e da country
music, despertando interesse pela slide guitar e pela sonoridade
mais acústica e lírica deste gênero musical.
Passou dias compondo com Dylan na América e tocou com outros
músicos, como Clapton, Delanie, Bonnie & Friends e Jackie
Lomax. Voltou a desenvolver-se como guitarrista, pois sua evolução
nesta fase é marcante. Com os Beatles, sentia-se limitado
e pouco considerado, irritando-se com a postura ‘autoritária’
de Paul e com a indiferença de John. Mas no projeto final
do filme “Let It Be” conseguiu encaixar duas canções:
“I Me Mine” (uma declaração clara de que
havia adquirido auto confiança suficiente para ‘peitar’
os colegas, tudo isso forrado com uma melodia inspirada, no início,
em cadências que lembravam a musica espanhola) e “ For
You Blue”, um número básico de rock and roll.
O melhor de George dentro dos Beatles estaria por vir nos meses
seguintes. E seria um adeus mais do que luxuoso, um vigoroso tapa
com luvas de veludo nas caras de Lennon e de McCartney.
Primeiro
foi o lado B do single “The Ballad Of John And Yoko”,
com a deliciosa “Old Brown Shoe”, um número pesado
de rock com um dos melhores e mais rápidos solos de guitarra
já gravados por Harrison (o dueto de sua guitarra com o contrabaixo
imponente de Macca nesta gravação é simplesmente
sublime). Depois, viria o canto dos cisnes dos Beatles, “Abbey
Road”, que trouxe “Something” e “Here Comes
The Sun”. A primeira já havia sido composta nos tempos
do Álbum Branco, sendo em princípio rejeitada pelo
próprio George (comenta-se que Chris Thomas, então
auxiliar de Martin durante as sessões de gravação
do disco, sugeriu para Harrison que incluísse “Something”
no lugar de “Piggies”, que muitos consideravam fraca).
Mas valeu a espera. “Something” é um dos temas
melódicos mais bonitos da musica popular, uma honesta e realista
declaração de amor pela então esposa Patti
(“você me pergunta se meu amor vai crescer...eu não
sei, eu não sei”) cantada sob uma delicada criação
musical que inclui um dos solos mais bonitos feitos por um guitarrista
da musica ocidental. Era a consagração de Harrison
como criador de uma “melodia dentro da outra”. “Something”
foi o primeiro lado A de uma canção sua com os Beatles,
indo diretamente para o primeiro lugar dos charts. Seria também
sua musica mais gravada, merecendo até uma versão
de Frank Sinatra, que pensou que ela fosse mais uma obra da dupla
Lennon/Mccartney!!! Paul, na verdade, declarou sem pudores que a
musica era, em sua opinião, a melhor do LP.
Fechando
o ciclo, no início do lado B de “Abbey Road”,
“Here Comes The Sun” revela a tradição
que ganharia corpo no estilo composicional de Harrison, que seria
transformar um riff de guitarra na melodia principal. Composta sem
maiores pretensões num momento descontraído nos jardins
da casa de Clapton, “Here Comes The Sun” tem letra otimista
(foi como ele combateu o stress das discussões dos Beatles
sobre os negócios da Apple) e um excelente trabalho de violões
tocados por George, além do inovador uso do sintetizador
moog que ele havia trazido para o estúdio, e que criou um
clima diferente para o último LP dos Beatles.
Com
isso, era como se George Harrison pudesse dizer aos colegas: “Estão
vendo como sou tão bom quanto vocês e como vocês
erraram ao me reprimir?”. Se disse isso nas entrelinhas, em
público ele apenas usou sua orientação filosófica
para evidenciar o que sentia nesta ocasião: tudo na vida
tem que passar. George caminhou imponente de um lado para o outro
na capa de “Abbey Road”, como se soubesse que caminhava
para si mesmo e para sua afirmação como compositor
e musico. Enfim, o George Harrison beatle foi o grande responsável
pelos toques exóticos, dissonantes e um pouco mais introspectivos
dentro da musica do quarteto. Ele foi fundamental na transição
da banda em sua busca por alternativas musicais e filosóficas.
CARREIRA SOLO NOS ANOS 70
Gravar
um disco solo com musicas “normais” para qualquer beatle,
até 1970, era uma ofensa, um insulto aos fãs e ao
próprio conjunto. John realizara alguns “projetos”
(ou seriam dejetos?) com Yoko, salvando-se apenas o “Plastic
Ono Band Live Peace In Toronto” em fins de 1969. George havia
gravado a trilha de um filme e lançado um disco onde apenas
brincava com o sintetizador moog recém-adquirido (“Electronic
Sound”, em maio de 69). Depois de “Abbey Road”,
John avisou que estava fora e sentiu-se a vontade para lançar
o disco ao vivo já citado. Ringo e Paul começariam
seus projetos-solo em dezembro daquele mesmo ano. Eles acabariam
saindo em abril de 1970 (“Sentimental Journey” e “McCartney”).
O disco de Ringo era mais uma brincadeira do que um LP “sério”,
pois nele o baterista interpretava antigos standarts da canção
popular norte-americana. Mas quando o LP de Macca –com canções
fortes e originais- chegou às lojas acompanhado de uma entrevista
bombástica, onde ele assumia sua saída dos Beatles
e o conseqüente fim do grupo, a revolta foi geral. Os outros
três reclamaram da atitude de Paul, acusando-o de “traição”.
Principalmente porque o álbum “Let it Be”, dos
Beatles, remixado e revisado milhões de vezes em um ano,
chegava ao mercado quase que no mesmo dia. Coincidentemente, foi
depois que Macca lançou seu LP que George resolveu entrar
no estúdio e começar a gravar o seu mais eloqüente
e brilhante trabalho solo de toda a sua carreira.
“All
Things Must Pass” foi lançado em dezembro de 1970,
no mesmo mês em que Lennon lançou sua obra prima visceral,
o “Plastic Ono Band”. Ao contrário da crueza
e despojamento do disco do colega, “All Things” resultou
numa super- produção sonora, com Phil Spector dividindo
o comando técnico com Harrison. E, pasmem, o disco era triplo!!!
Este
magnífico álbum, na verdade, é o testamento
definitivo da melhor fase de Harrison como compositor, pois traz
quase todas as canções que ele fez desde 1966 e que
não puderam entrar nos discos dos Beatles. A maior parte
das canções trazia os fortes traços da filosofia
oriental de George em suas letras, além de relatos sinceros
de seus sentimentos em relação aos desentendimentos
entre os colegas de grupo. “Isn’t It A Pity” (que
ganhou duas versões) é a melhor tradutora destes sentimentos:
“Não é uma pena?/ como quebramos nossos corações/
e ferimos uns aos outros?”). Linda, longa, simples, melancólica
e carregada pela parede sonora envolvente de Spector e por solos
emotivos de guitarra, essa canção foi escrita para
o “Let It Be”, mas acabou fora. O mesmo aconteceu com
a canção título, cuja letra traduz o doloroso
final dos Beatles através de metáforas: “A noite
não dura pra sempre/ pela manhã ela logo se despede/
todas as coisas passam/ então me mantenho firme em meu caminho/
para encarar o novo dia que amanhece”.
“Beware
Of Darkness” traz uma característica definitiva de
Harrison, que é desenhar uma harmonia onde subitamente um
acorde cai meio tom, mudando o rumo da melodia e provocando uma
surpresa no ouvinte. “I’d Have You Anytime” é
o resultado da parceria com Dylan no final de 1968, quando George
passou alguns dias com ele em sua mansão campestre de Woodstock.
A melodia é de George, que usa uma seqüência de
acordes com sétimas maiores que imprimem uma sofisticação
charmosa e diferente na canção. “Art of Dying”
é um tratado filosófico sobre a reencarnação,
e que inova pelo uso bem bolado de riffs de guitarra cheios de efeitos.
“What Is Life” é um número de pop/rock
pesado, que lançado em single meses depois, fez um grande
sucesso, com seu riff de guitarra com som distorcido. “Behind
That Closed Door” é o debut de George na country music
com uma excelente melodia, enquanto “Run Of The Mill”
e “Apple Scruffs” se aproximam do folk com um lirismo
especial. “Awaiting On You All” e “Hear Me Lord”
são números de gospel inspirados no trabalho de Billy
Preston, grande tecladista amigo de Harrison que havia tocado com
os Beatles no “Let It Be” e que participou de todas
as gravações de “All Things”. Havia ainda
uma excelente versão para “If Not For You” de
Dylan e outra faixa original, “Let It Down”, esta última
uma melodia elegante com uma harmonia diferenciada que acabou sendo
prejudicada pelos excessos da produção carregada de
timbres. Canções menores como “I Dig Love”,
“Ballad Of Sir Frankie Crisp” e “Wah-Wah”
também tem um resultado agradável, embora sejam inferiores
ao material do disco como um todo. Claro, neste álbum está
o méga hit “My Sweet Lord”, que vendeu milhões
de cópias em todo o planeta durante 1971 e que mais tarde
traria transtornos para o ex-beatle, que foi acusado de cometer
plágio em cima de “He Is So Fine”, dos Chiffons,
fato que seria comprovado. Tal dissabor somaria um prejuízo
de milhares de dólares para George anos depois. O LP de número
3 trazia apenas o registro de algumas jams sessions realizadas entre
as gravações, com destaque para “I Remember
Jeep”, com Clapton e George nas guitarras e Ginger Baker na
bateria. “All Things” teve ainda participações
fundamentais de Ringo, Jim Keltner, Klaus Voormann, do grupo Badfinger
e de Dave Mason, entre outros. Foi o primeiro álbum triplo
a alcançar o primeiro lugar nas paradas e a vender milhões
de cópias. A imprensa musical, embasbacada, definiu Harrison
como um compositor tão brilhante quanto Lennon e McCartney.
E tudo indicava que uma grande e nova carreira estava nascendo ali.
Havia
uma pessoa apenas que poderia atrapalhar os planos de George Harrison:
ele mesmo. Com o sucesso de “All Things”, o fim dos
Beatles e seu reconhecimento definitivo como compositor, ele parecia
redimido. Infelizmente, o efeito causado por tamanho estardalhaço
foi uma acomodação que ganharia espaços a cada
ano que chegava. Em 1971, seu maior feito foi organizar e conduzir
o concerto para Bangla-Desh, em 1 de agosto, no Madison Square Garden
de Nova Iorque, e que foi o primeiro evento beneficente da história
do rock, juntando estrelas como Dylan, Clapton, Leon Russell, Ringo,
Billy Preston e Ravi Shankar. Foi o citarista quem pediu ao amigo
George a sua realização, em benefício dos famintos
de sua terra natal. O show, realizado em duas sessões, foi
um enorme sucesso tanto de público quanto em lançamento
de mais um disco triplo de sucesso e um filme milionário
no início de 1972.
George
também atuou em “Imagine”, de Lennon, realizando
um ótimo trabalho de slide guitar, além de ter tocado
e produzido discos de Ringo (o excelente e bem sucedido single com
“It Don’t Come Easy”) e artistas como o Radha
Krsna Temple, Badfinger, Billy Preston, Ronnie Spector, Doris Troy
e tantos outros. Mas de inédito, Harrison lançaria
neste ano apenas um single com “Bangla-Desh” e “Deep
Blue”, a primeira resultando numa canção eficiente
e instigante, com um chamado de ação para o problema
da fome na Índia. A segunda ele compôs para a mãe,
que havia falecido um ano antes. Como detalhe interessante, foi
neste single que a voz de George mudou ligeiramente de timbre, ficando
mais aguda, o mesmo acontecendo com sua slide guitar, com um som
que viraria sua marca registrada pelo resto da vida.
George
só voltaria a editar um novo LP e um novo single um ano e
meio depois, no início de 1973, quando lançou “Living
In The Material World”. Este álbum trouxe um grande
sucesso, “Give Me Love”, um de seus grandes temas melódicos
com sabor de mantra-pop, na esteira de “My Sweet Lord”
(mas sem plagio!). Sua técnica no slide estava ainda melhor,
e Harrison parecia crescer como musico de identidade singular .
O LP não parava por aí; a música título
é um de seus melhores momentos, um rock forte que ganhava
contrastes na mudança melódica e climática
que alternava o ritmo rápido com uma suave e relaxante segunda
parte indiana. A letra criticava, mais uma vez, o consumo e as luxúrias
do “mundo material”, e até John e Paul entraram
na dança dos ‘pobres mortais que desprezam à
Deus’...
Este
LP traz outras grandes canções, como “Don’t
Let Me Wait Too Long” (um rock com um letra leve e romântica),
“That Is All” (uma doce e lenta balada escrita para
Krisna), a dramática “Try Some Buy Some” (feita
para Ronnie Spector e que relatava uma surpreendente abordagem do
uso indevido de drogas) e o ótimo blues-rock que ironizava
as batalhas judiciais dos ex-beatles (“Sue Me Sue You Blues”,
também gravada por Jesse Ed Davis). Outros bons momentos
estão inclusos, mas um detalhe que desagradou aos críticos
e fãs foi a persistência do discurso religioso. Além
do mais, o contraste entre o luxo em que George vivia na sua imensa
mansão de Friar Park, em Londres, com suas críticas
ao “mundo material”, começavam a soar como contradições
descaradas demais para que suas chamadas à “conscientização
espiritual” fossem levadas a sério.
Pessoalmente,
George começava a viver um período complicado. Seu
casamento com Patti Boyd chegaria ao final no ano seguinte, 1974,
quando ela finalmente foi viver com o melhor amigo de George, Eric
Clapton. O que se sabe é que ele pouco se importava com a
esposa, abandonando-a na imensa mansão enquanto eventualmente
se envolvia com outras mulheres, entre elas a esposa de Ringo na
época, Maureen. O ex-beatle também vivia às
turras com McCartney e Lennon no que dizia respeito aos entraves
burocráticos da Apple, gravadora dos Beatles. Com a explosão
de todos esses fatores, George passou a beber exageradamente e a
freqüentar festas entre a América e a Europa, dando
ainda mais espaços para seus detratores, que começavam
a considerá-lo incoerente e ultrapassado, alguém com
um discurso religioso cínico e não condizente com
seu verdadeiro comportamento.
Tudo
isso refletiu-se em sua produção musical e em sua
vida pessoal. Para fugir da solidão causada pela partida
da esposa, George entregou-se ao trabalho. Criou sua própria
gravadora, a “Dark Horse Records”, que seria distribuída
mundialmente pela poderosa A&M, e passou a produzir discos de
outros artistas com freqüência, entre eles Ravi Shankar
e o duo Splinter; finalmente, resolveu partir para uma turnê
pela América do Norte em novembro, acompanhado por um time
fantástico de músicos (Shankar & Family, Billy
Preston e a banda californiana L.A Express). Para coincidir com
os shows, Harrison lançou às pressas um novo LP em
dezembro, também batizado de “Dark Horse”.
O
álbum foi literalmente massacrado pela crítica. Na
verdade, George estava revelando uma certa desorientação
musical, pois produziu o disco ao longo do ano em estúdios
diferentes, com equipes e épocas distintos e músicos
variados, que mudavam de faixa para faixa. O resultado foi um disco
irregular, que incluiria boas canções como a faixa
título (um excelente número acústico com toques
de musica indiana) e a climática “Maya Love”,
que inovou pelo uso do funk na panela musical do guitarrista. “Hari’s
On Tour” é um bom número instrumental que namora
de leve o jazz-rock, e “So Sad” é uma boa canção
de acento folk, com ótimo trabalho de violões, mas
infelizmente prejudicada pelo vocal esganiçado do ex-beatle,
cuja voz parecia tornar-se cada vez mais aguda e inconsistente,
com a passagem dos anos. E por falar nisso, para complicar as coisas,
Harrison ficou rouco durante as gravações finais do
disco, em função dos longos ensaios para a turnê
que se iniciaria a seguir. “Dark Horse”, ainda assim,
seria um single de sucesso e puxaria o álbum para os 10 mais
vendidos da América e Europa no início de 1975.
A
turnê, que durou quase dois meses, acabou sendo um dos maiores
fiascos da carreira de George. O público não aceitou
sua decisão de incluir o set indiano de Shankar no repertório
dos shows. A platéia queria, de fato, o beatle Harrison tocando
suas canções dos tempos dos Beatles, com arranjos
fiéis aos originais. Ao invés disso, George tocou
algumas canções do ainda não lançado
“Dark Horse”, outras do “Material World”,
além de ter mudado os vocais e arranjos de “Something”,
“What Is Life” e “While My Guitar Gently Weeps”,
transfigurando-as completamente, a ponto de alterar-lhes até
as letras. Além do mais, sua voz acabou antes da turnê
começar, e a banda que o acompanhava tinha a clara orientação
musical funk/soul de Billy Preston, que em determinados lugares
chegou a entusiasmar a platéia com melhores resultados do
que George. Ás vezes, inconformado com a baixa receptividade,
ele perguntava para o público: “Tem alguém vivo
aí embaixo?”
Alguns
episódios curiosos e deprimentes aconteceram nesta ocasião;
sensibilizado pelas críticas negativas ao amigo, John Lennon
foi ao encontro de Harrison para oferecer-lhe apoio e eventualmente
uma participação especial em alguns shows. Infelizmente,
as discussões sobre a Apple azedaram tais possibilidades
e George acabou se magoando com algumas posturas de John diante
deste problema. George chegou a berrar com o colega e a jogar seus
óculos para longe quando tentou lhe acertar um soco! “Eu
segurei essas apresentações sozinho até agora
e dispenso sua ajuda! E sozinho vou terminá-las!” teria
gritado o guitarrista para Lennon. Mesmo assim, John compareceu
a algumas apresentações e permaneceu ao lado de George
nos bastidores e na festa de encerramento da turnê. Depois
destes dias, os dois amigos jamais se encontrariam em vida outra
vez.
Como
curiosidade, Harrison incluiu no repertório dos shows a faixa
“In My Life”, de John, e a dedicava aos ex-colegas,
agradecendo-os sempre no final da canção. Quando questionado
sobre uma possível volta do quarteto, ele se enfurecia: “As
pessoas insistem em viver no passado, esquecendo-se do momento presente.
Se vocês querem viver no passado, assistam aos Wings, e esqueçam
de mim!”, declarou certa vez no meio da excursão. De
xodó da imprensa especializada, ele passava à vilão.
Será que a fase de ouro da carreira solo de Harrison havia
chegado ao final de forma prematura? E aqui fica outra pergunta:
a antiga carência de espaços para ele nos discos dos
Beatles e a falta da saudável competição entre
eles estaria afetando o talento de Harrison como compositor?
Se
dependesse do álbum lançado no ano de 1975, a resposta
ainda seria complicada e causaria mais dúvidas. “Extra
Texture” foi gravado rapidamente para que se liquidasse o
compromisso de Harrison com a EMI/Capitol/Apple. A bem da verdade,
todos os ex-beatles desejavam o final deste contrato, que tantas
dores de cabeça provocou neles durante anos, por sua confusa
distribuição de royalties e outros direitos autorais.
Na ocasião em que foi lançado, o disco causou uma
impressão geral ruim. O single com “You” –uma
canção antiga composta e gravada em 1971 por George
para que Ronnie Spector cantasse- teve desempenho razoável,
a despeito de a canção não ser de má
qualidade. A ex-esposa de Phil Spector a rejeitou na ocasião,
e Harrison, carente de um número de apelo comercial mais
consistente à sua disposição, acabou por recuperá-la
acrescentando nela um novo vocal. E foi sua voz aguda que comprometeu
a faixa, fazendo com que ela perdesse força, não se
adequando em sua melodia. Mas sem dúvida, “You”
está longe de ser uma das melhores composições
do ex-beatle. No LP, o material todo soou bastante melancólico
e triste, demonstrando que seu compositor não estava vivendo
uma boa fase pessoal e criativa. A produção acabou
sendo incapaz de dar variedade às canções,
e ficou evidente que George teve que recorrer a temas já
um tanto antigos, que permaneciam até então incompletos,
para fechar um álbum. Letras que falavam de solidão
e descrença no comportamento moderno, acompanhadas por arranjos
com ênfase nos teclados e sintetizadores, imprimiram um ar
sombrio e depressivo no disco como nunca se havia ouvido em trabalhos
anteriores de George Harrison. Sua slide guitar pouco aparece no
LP; com o passar dos anos, e com audições esporádicas,
“Extra Texture” revela canções interessantes,
como a filosófica e meditativa “The Answer’s
At The End”, a suave e romântica “Ooh Baby”
e a boa “Can’t Stop Thinking About You”, feita
claramente para Patti. Numa fase em que o mercado pop pedia faixas
dançantes e hits com letras despretensiosas e inócuas,
este álbum foi um anti-clímax. Se fosse lançado
na fase dark que dominaria o rock inglês de vanguarda anos
depois, “Extra Texture” não pareceria tão
dissonante. De qualquer maneira, chegava ao fim um período
de pouca criatividade para o ex-guitarrista dos Beatles. George
melhoraria e muito nos dois trabalhos seguintes, recuperando a energia
e o pulso de sua grande fase de 1968/69.
Não
sem antes de mais algumas dores de cabeça. O processo por
plágio em “My Sweet Lord” atormentaria o guitarrista
durante os próximos anos, não dando refresco à
George após as encrencas com a Apple. Para complicar mais
sua situação jurídica, a A&M achou que
ele estava demorando demais para entregar um novo LP e acabou por
processa-lo por quebra de contrato. George perderia milhares de
dólares nos dois processos; como resultado, acabou contraindo
uma forte hepatite que o jogou na cama por dois meses, logo após
a conclusão das gravações do novo álbum,
em meados de 1976. A única coisa boa em sua vida parecia
ser Olívia Arias, namorada de George há dois anos
e que havia sido secretária da A&M Records, onde o conheceu.
Morando com Harrison, ela foi fundamental no processo de sua recuperação
emocional e física.
“33
and 1/3” (uma referência à sua idade na época)
acabou saindo em dezembro de 76 pelo selo Dark Horse de George,
que por sua vez seria distribuído pela Warner, gravadora
que o acolheria pelos próximos 16 anos. E resultou num excelente
disco, imediatamente saudado por fãs e críticos como
uma ‘volta’ aos bons tempos de “All Things Must
Pass”. E de fato o é, embora com um estilo de música
substancialmente diferente e mais swingado. Com participações
marcantes de músicos negros de funk, rhythm ‘n’
blues e jazz-rock como Willie Weeks, Billy Preston e Andy Newmark,
o álbum traz uma marca forte de todos esses ritmos, fazendo
com que George parecesse em dia com o que melhor se fazia no pop
(o punk ainda estava incipiente em 1976). Além disso, seu
trabalho na guitarra e na idealização dos arranjos
estava melhor do que nunca. É a melhor fase de Harrison como
guitarrista. Seus solos , ora rápidos, ora melódicos,
resgatavam seu inegável talento para o instrumento. Há
no LP rocks vigorosos como “Woman Don’t You Cry For
Me” e “This Song” (uma delirante paródia
ao julgamento por plágio em “My Sweet Lord”),
um quase funk (a ótima “It’s What You Value”),
um folk denso e belíssimo (“Dear One”), baladas
com temperos dos Beatles da fase “Rubber Soul” (“Beautiful
Girl”, “Learning How To Love You”, esta última
lindíssima), e pop da melhor qualidade ( “See Yourself”
e “Crackerbox Palace”, esta o maior hit do LP). Há
ainda “Pure Smokey”, uma singela e elegante homenagem
para Smokey Robinson e à soul music. Para completar, George
gravara uma versão muito singular da clássica “True
Love”, de Cole Porter. O velho Harrison estava de volta com
um disco para cima, otimista, que havia dispensado as letras de
cunho religioso/melancólico, para voltar aos temas mais joviais
e de maior receptividade junto ao mercado pop, o que fez com que
ele conquistasse novos fãs.
Este
mercado, por sinal, vivia uma transição entre o velho
rock progressivo e o hard rock, para canções pop mais
funkeadas, de um lado, e o punk rock emergente na velha terra da
rainha de outro. George não enveredou aqui para uma música
apelativa e banal que tanto caracterizaria a disco-music (febre
que assolou o mercado de discos nesta época), como faria
Ringo logo a seguir, nem ao rock mais agressivo, mas reinventou-se
e arejou seu estilo musical -que eu apropriadamente chamo de soft-rock-
dando-lhe novo fôlego e vigor. “33” teve boa acolhida
do público e de vendas, embora tenha ficado longe das marcas
milionárias de “All Things” e “Material
World”. Uma excelente fase, afinal!
O
lançamento de “33” teve uma boa promoção.
George apareceu em alguns programas de TV, gravou dezenas de entrevistas,
veio para a América, circulou pela Europa e gravou três
clipes promocionais para faixas do disco. Mas não chegou
a tocar ao vivo. O trauma pela turnê americana o impediria
de se apresentar ao vivo em uma longa série de shows até
1991, quando Clapton o convenceria a excursionar pelo Japão.
Com o satisfatório sucesso do novo LP e a boa acolhida da
crítica, o ex-beatle recolheu-se com Olívia, passou
a freqüentar corridas de F1 e deu um tempo na música
e nas aparições em público, a exemplo do que
fazia John Lennon. Analisando de hoje, esse devia ser um comportamento
circunstancial de Harrison: quando ele conseguia produzir um trabalho
de sucesso, isso parecia lhe dar tranqüilidade e segurança
para diminuir o ritmo e se acomodar. Na verdade, também,
George odiava publicidade e detestava ter que promover seus discos.
Ao mesmo tempo, adorava que eles chegassem aos primeiros lugares,
claro! Há ainda outra hipótese para seu sumiço,
pelo menos nesta fase: a infindável briga pela acusação
de plágio em “My Sweet Lord”, que ainda aconteceria
pelos tribunais até o ano de 1981. Em uma entrevista concedida
no início de 77, um irritado Harrison comentou: “Eu
fico nervoso toda vez que componho uma nova canção,
porque suspeito que alguém com um computador vai pegar essa
canção, analisa-la e depois dizer se ela é
minha, ou não. Fico nervoso porque não quero passar
o resto de minha vida em tribunais. Pode ser que exista um louco
que pense ‘bem, pegaram o Harrison com My Sweet Lord, então
vamos lá, vamos processa-lo também’. Eles podem
processar o mundo! Eu fico paranóico quando vou compor, porque
penso ‘Deus, se eu tocar a guitarra ou o piano eu posso estar
tocando uma seqüência de notas de alguém!, um
cara qualquer pode ser dono desta nota, é melhor você
tomar cuidado!”.
Enquanto
dava um tempo do mercado fonográfico, seu interesse por cinema
estava aumentando, em função de suas amizades com
a turma deste meio –gente como Peter Sellers e o grupo Monty
Phyton- e em breve o guitarrista estaria produzindo filmes de sucesso
e criando sua produtora, a “Handmade”, em sociedade
com seu empresário Dennis O’brien.
Durante
a curta ausência de George do mundo do disco, muita coisa
havia se transformado. O rock estava sofrendo sua mais séria
mutação desde os tempos do psicodelismo, dez anos
antes; O punk assolava a Inglaterra, na esteira do desemprego e
da falta de perspectiva dos jovens. Com guitarras incendiárias
e uma batida básica e áspera em cima da velha cadência
tonica-subdominante-dominante, os jovens roqueiros eram implacáveis
nas críticas aos antigos ídolos, acusando-os de estarem
ricos e acomodados; eram extremamente violentos e auto-destrutivos,
se drogavam com drogas pesadíssimas e não sustentavam
suas carreiras por mais que três anos. Mas a marca que deixaram
no rock foi histórica e essencial: viraram-no de ponta cabeça
e injetaram uma vitalidade incrível na musica popular: Sex
Pistols, The Clash, Joy Division, XTC, The Police, The Banshes,
Elvis Costello, etc; suas letras não eram nada idílicas,
pelo contrário: o niilismo havia tomado conta do cenário,
juntamente com a visão sombria de uma sociedade decadente
e caótica. Na América, mais exatamente em Nova Iorque,
uma legião de jovens músicos tocava pelos pubs e pequenos
teatros, reinventando o rock com elementos não só
do punk, mas igualmente com a nova poesia de rua, reggae, ska, new-folk
e power-blues: Talking Heads, The Ramones, Dead Kennedys, Patti
Smith, etc. Nos EUA, esse movimento ganhou o nome de new wave. Na
Alemanha, havia o desenvolvimento do tecno-rock, musica tocada por
computadores e sintetizadores de ultima geração, através
de artistas como o grupo Kraftwerk e os ingleses Brian Eno e David
Bowie, este último sempre buscando novas referências
para sua música. Havia novamente muita criatividade no ar
e novas formas de se interpretar a musica pop. O mundo parecia cada
vez mais interligado pelo desenvolvimento das mídias e pela
chamada ‘mundialização’ dos meios de produção,
inclusive o avanço das grandes multinacionais do disco, que
podiam pegar elementos musicais africanos, por exemplo, e injeta-los
no mercado americano (embora o movimento contrário tenha
sido sempre mais forte). De qualquer maneira, o final dos anos 70
representou um sopro tão importante na musica popular quanto
o foram os anos 50 com a explosão de Elvis, os 60 com os
Beatles e a “invasão inglesa”, e o final dos
60 com o psicodelismo. Os velhos ídolos destas fases, por
exemplo, estavam em maus lençóis. Uma mudança
se fazia necessária, e rapidamente. Assim, os Rolling Stones
voltaram a tocar rock and roll básico para responder às
críticas dos punks; Bob Dylan aproximou-se da nova country
music dos ingleses do Dire Straits, embora tenha surpreendido o
mundo com sua conversão ao cristianismo; Lou Reed foi aceito
como um mestre entre os punks por permanecer fiel à sua música
ácida e corrosiva. E os ex-beatles? Por onde andavam enquanto
a casa caía?
Enquanto
Lennon vagava entre o Japão e Nova Iorque, tutelado por Yoko
, compondo alguns temas que permaneceriam inacabados para sempre,
Paul e Ringo gravavam discos ruins, banais, incolores e superficiais,
titubeando o primeiro entre baladinhas açucaradas e rocks
caricaturais e sem força, e o segundo entre alguns countrys
inócuos e a mais ridícula disco-music. Foi preciso
que a EMI buscasse em seus arquivos algumas gravações
ao vivo dos Beatles no Hollywood Bowl, nos anos de 64 e 65, para
fazer com que eles voltassem a chamar a atenção da
mídia e público para a genialidade e energia antigas.
O LP “Hollywood Bowl” chegou ao topo das paradas em
1977, sendo que no ano anterior uma surpreendente onda de beatlemania
sacudiu a América da new wave e a Inglaterra do punk. O passado
dos Beatles começava a conspirar contra o presente dos ex-beatles,
lembrando-os de que um dia eles haviam sido criativos e absolutamente
impecáveis.
George
Harrison teve um ano diferente, em 1978; seu filho Dhani nasceu
em 1 de agosto, e o guitarrista oficializou sua união com
Olívia um mês depois. A vida parecia tranqüila
e sem muitos percalços para Harrison, depois de anos e anos
de processos, uma turnê mal sucedida e uma carreira cheia
de altos e baixos. Agora, seu divertimento eram as corridas de F1.
Foi justamente numa corrida destas que George voltou a inspirar-se
o suficiente para apanhar a guitarra e recomeçar a compor.
Na seqüência, outros temas foram aparecendo, e no final
do ano, Harrison já estava com novo material gravado em seu
estúdio caseiro, o F.P.H.O.T.S. O novo LP saiu em fevereiro
de 79, chamando-se simplesmente “George Harrison”.
Em
contraste com a violência do punk e com o colorido criativo
da new wave, George produziu um álbum atípico para
a época, totalmente fora dos padrões pop que se constituíam
então. Mas por outro lado, registrou com eficiência
o seu som pessoal, sua marca registrada: o soft-rock banhado por
sua slide guitar e por arranjos de teclados e sintetizadores, com
auxílio de músicos como Steve Winwood, Gary Wright
e, novamente, Eric Clapton, com quem havia retomado a forte amizade.
Diferentemente de “33”, este álbum resultou num
trabalho mais sereno, mais comedido e suave, repleto de canções
doces e letras em sua maior parte românticas e lúdicas.
A bonita e otimista “Blow Away” foi lançada em
single e teve bom desempenho junto às emissoras de radio
e TV, ganhando inclusive um singelo clip. “Love Comes To Everyone”
é uma das mais leves e alegres faixas de George, demonstrando
que ele estava de bem com a vida. “Your Love Is Forever”
é uma bela canção de amor, enquanto o rock
moderado “Faster”, a canção feita em homenagem
aos novos amigos de Harrison –os pilotos de F1- é uma
de suas canções mais fortes destes tempos. “Here
Comes The Moon” é um bom número acústico,
ao passo que a antiga “Not Guilty”, feita originalmente
para o Album Branco dos Beatles, 10 anos antes, ganhou a luz do
dia num arranjo bem mais acústico e delicado que a versão
do quarteto.
Bem
recebido por crítica e público, “George Harrison”
acabou sendo mais um bom momento da carreira de George, que diferentemente
de Paul e Ringo, não cedeu aos modismos disco da época,
e nem tentou ‘sujar’ seu som como os punks, embora se
distanciasse na mesma proporção da inovação
sonora que conquistava a musica pop em suas vertentes mais criativas
e revolucionárias. Os tempos, definitivamente, eram outros,
e muito em breve Harrison sentiria a pressão da Warner em
função de sua deslocada posição no cenário
pop.
GEORGE NOS ANOS 8O
Animado
com o resultado do disco anterior e mais envolvido com a produção
de filmes (que traziam bons resultados, principalmente o clássico
A Vida de Brian), George continuou compondo e gravando esporadicamente
durante o ano de 1980, surpreendendo os fãs que imaginavam
que ele fosse sumir novamente. Quando finalizou as sessões
e entregou o master de um novo LP para a Warner, em outubro de 80,
George teve uma surpresa. A gravadora pediu a ele que retirasse
algumas canções mais lentas e não muito comerciais
para substituí-las por outras mais rápidas e de apelo
mais palatável, que o mercado de discos exigia naquele momento.
Bronqueadíssimo, ele voltou ao F.P.H.O.T.S. para gravar 4
novas canções. Para piorar sua raiva, a gravadora
também pediu que ele mudasse a capa do álbum, que
já estava pronta.
Harrison
estava finalizando essas sessões de gravação
inusitadas quando recebeu a notícia do assassinato de John.
Atordoado, ele se refugiou por dias em sua mansão, recusando-se
a falar com a imprensa.
Pouco
se sabe sobre um possível contato dos dois ex-parceiros depois
daquele incidente de 1974 na América. Mas especulou-se que
George havia telefonado para John oferecendo-lhe ajuda no LP “Double
Fantasy”. Infelizmente, não conseguiu falar com Lennon,
e o recado, com isso, foi passado para Yoko, que não o transmitiu
para John. De qualquer maneira, o choque deve ter sido acrescido
de um enorme complexo de culpa, pelo fato de eles não terem
mais recuperado sua antiga amizade e também por Harrison
ter tratado o ex-parceiro com aspereza no último encontro.
A atitude seguinte, depois de meses de paralisia, foi pegar uma
base já gravada de uma canção que seria oferecida
para Ringo e reescrever sua letra em homenagem à Lennon.
Esta
faixa, a emotiva “All Those Years Ago”, saiu no novo
LP, “Somewhere In England”, em junho de 81, e em um
single que seria o último hit de George em 7 anos. Um tanto
deslocada em relação ao ritmo rock and roll da faixa,
a letra diz: “Sempre me guiei por você (...) você
sempre foi o motor de nossas alegrias”.
O
restante de “Somewhere In England” não desapontou,
embora tenha sido considerado mais fraco que o LP anterior. As melhores
faixas são a linda “Life Itself” (um retorno
aos temas em que a religiosidade se sobressai), cuja melodia seguia
o riff inicial de guitarra, como de costume; “Teardrops”,
uma despretensiosa e romântica balada funkeada; “Writing’s
On The Wall”, uma canção típica de Harrison,
com referências filosóficas e uma melodia forte embalada
por um arranjo cheio de efeitos de sintetizadores, e o country “That
Wich I Have Lost”, uma das canções gravadas
após a recusa da Warner. George gravou também duas
canções de Hoagy Carmichael, um antigo compositor
americano que o ex-beatle admirava: “Honk Kong Blues”
e “Baltimore Oriole”, outros bons momentos do disco.
No entanto, a versão original do LP acabou circulando no
mercado pirata algum tempo depois, quando se teve a oportunidade
de avaliar as canções rejeitadas pela Warner. Assim,
torna-se incompreensível a exclusão da excelente “Flying
Hour” (originalmente gravada ainda antes para o “George
Harrison”), ao passo que a horrenda “Save The World”
entrou na edição final. O mesmo pode-se dizer das
outras ‘renegadas’: “Lay His Head”, que
só apareceria oficialmente como lado B de um single anos
depois; “Tears of The World”, que é um daqueles
temas mais complexos, com mudanças harmônicas inusitadas
interessantes; e “Sat Singing”, uma canção
comum, sem maiores referências.
Apesar
de todos esses fatores, o álbum teve uma boa receptividade,
muito em função do single com “All Those Years
Ago”. Isso, no entanto, não foi o suficiente para impedir
que Harrison se aborrecesse com a gravadora e se desiludisse novamente
com o mundo da musica popular. Depois de um ano, em outubro de 1982,
ele lançou “Gone Troppo” de surpresa, sem promovê-lo,
fato que também ganhou a indiferença da Warner.
Esse
álbum morno e pouco inspirado encerrou de forma melancólica
um período de impulsos positivos na carreira de George. Havia
até um rock vibrante com teclados bem ao sabor da new wave
que abria o disco, “Wake Up My Love”, mas a canção
parecia tão forçada e descaracterizada, que seu single
nem chegou a aparecer entre os top 50 dos charts. As melhores faixas
deste disco são “That’s The Way it Goes”
, um tema com uma melodia simples que se alterna com solos de slide
guitar (A letra, de novo, foi inspirada na bronca de George com
a mídia: "Há um homem falando no rádio/o
que ele está dizendo eu realmente não sei/ mas me
parece que ele perdeu algumas bugigangas e quinquilharias/ sua atenção
e capacidade de observação/ ele está com medo,
eu sei/ e assim a coisa vai...") e a excelente “Mystical
One”, uma auto-avaliação bastante despojada
de George: "Aquele místico que eu conhecia está
de volta/ acalmando-me com olhos que lembram gotas de chuva/ tocando-me/
e deixando doce o meu coração", além de
citar a espiritualidade e a música como fatores imprescindíveis
dentro de suas características pessoais: "Você
respondeu às minhas preces mais profundas/ com uma canção".
Outros temas razoáveis apareceram no disco, cuja produção
valorizou em demasia os arranjos de teclados e sintetizadores, relegando
a guitarra de Harrison ao segundo plano. O álbum passou batido
pela imprensa e público, encerrando quase que anonimamente
mais uma fase da carreira do guitarrista.
Revoltado
com a máquina do pop e com a gravadora Warner, George desapareceria
de cena mais uma vez, alternando seu tempo entre férias em
sua propriedade no Havaí e o escritório de sua “Handmade
Films” em Londres, além de viagens para a América..
Este exílio da musica duraria quase 4 anos, sendo quebrado
apenas por esporádicas sessões de gravação
no F.P.H.O.T.S. e um programa de TV em homenagem à Carl Perkins
em outubro de 1985 (primeira aparição ao vivo de Harrison
em 11 anos!). Ele não deixaria de compor, mas se recusaria
terminantemente a lançar um novo disco, alegando que não
concordava com os métodos das gravadoras para promoverem
seus contratados. Quando descobriu que haviam lançado um
single na América com “I Don’t Wanna Do It”
–canção de Dylan que ele havia gravado para
o filme “Porky’s Revenge” em 84- ficou enfurecido.
No começo de 86, de cabelos curtos e uma cara mais envelhecida
e séria (estava com 43 anos), George voltou a aparecer pela
mídia, pois estava começando a produzir um filme para
o casal Madonna e Sean Penn, “Shangai Surprise”. Quando
as filmagens estavam em fase final, ele resolveu compor para a trilha
da fita, usando algumas novas canções. No entanto,
com o fracasso de bilheteria que se seguiu ao lançamento
do filme, no final do mesmo ano, um possível álbum
com os seus temas foi suspenso. O fiasco do longa –que teve
uma complicada filmagem, repleta de brigas e estrelismos delirantes
do casalzinho e que exigiram a intermediação de Harrison-
acelerou, desta vez, o seu desencanto com a produção
de filmes. Percebe-se, assim, que o fracasso comercial de suas produções
–fossem elas de qualquer natureza- desanimavam-no demais.
A VOLTA PARA O SUCESSO
O
contato com as sessões de gravação para “Shangai
Surprise” acabou despertando uma súbita vontade em
Harrison de voltar a gravar mais canções inéditas
que tinha em sua gaveta. O longo sumiço de 4 anos estava
prestes a se encerrar; a recente amizade e a admiração
de George por Jeff Lyne fez com que o ex-beatle convidasse o antigo
líder da ELO para produzir um novo álbum com ele.
Assim resolvido, as gravações no estúdio de
Friar Park se iniciaram em meados de 1987, com as participações
de Ringo, Jim Keltner, Elton John, Eric Clapton e Ray Cooper, entre
outros. Com Lyne, Harrison finalizou antigas canções
e voltou à antiga forma. Resolvera ceder à Warner,
que em troca de algumas sugestões aceitas pelo ex-beatle,
prometeu promover o novo disco com alarde e alguns milhões
de dólares. As pazes estavam seladas e a volta de George
ao topo praticamente garantida.
Em
1987, a musica popular anglo-americana vivia uma crise intensa de
criatividade. O punk e a new wave já há muito haviam
sido devidamente absorvidos pela máquina de consumo do mercado
fonográfico, e vários de seus principais artistas
já estavam na velha ciranda do comodismo e das armadilhas
do estrelato. Com isso, e também com o incremento do CD como
espaço físico de intermediação e consumo,
a indústria musical viu-se na necessidade de relançar
antigos catálogos de ícones pop das décadas
anteriores para realimentar suas engrenagens. Os Beatles tiveram
todos os seus álbuns lançados em CD, assim como os
Stones, Dylan, o Led Zeppelin, The Who, etc, chegando novamente
às paradas de sucessos, impulsionando uma grande onda de
nostalgia. Grupos como o XTC e tantos outros gravaram homenagens
ao rock psicodélico, fazendo com que muitos artistas jovens
como os Stones Roses, e alguns já nem tão novatos
como Elvis Costello retomassem a linha do rock bem acabado de antigamente.
Veteranos como Peter Gabriel, Eric Clapton e Phil Collins conheceram
nesta ocasião um sucesso jamais atingido antes, com cifras
milionárias de vendagens de CDs e LPs. O grupo Dire Straits,
com seu country-rock inspirado em Dylan e Clapton, havia vendido
milhões de cópias com o disco “Brothers In Arms”.
O momento mostrava-se propício ao retorno dos medalhões,
e George Harrison sabia disso. Empolgado, ele venceu seu temor e
apareceu no “Prince’s Trust” daquele ano, ao lado
de Ringo, Clapton, Lyne e Phil Collins, para tocar duas grandiosas
versões de “While My Guitar Gently Weeps” e “Here
Comes The Sun”.
“Cloud
Nine” chegou às lojas em outubro de 1987, e alguns
meses depois, atingiria uma marca milionária de vendas, chegando
ao primeiro lugar por semanas seguidas, e dando ao ex-beatle um
single absolutamente vencedor, com uma versão de uma obscura
canção americana de 1961, “Got My Mind Set On
You”. Foi a canção mais tocada entre dezembro
de 87 e fevereiro de 88. Harrisonmania!
O
novo álbum de George foi uma conciliação entre
a sonoridade moderna e o revival psicodélico, além
de um salutar investimento no rock and roll básico. A música-título
abre o CD com um duelo de guitarras entre Harrison e Clapton, uma
batida firme de bateria de Ringo e uma melodia linear, quase sem
ondulações. A letra é assustadoramente madura
e propõe uma solução amorosa inédita
em temas de George: “Fique comigo e com aquilo que mais te
agrada/ o resto, o que te desagrada, só a mim pertence/ assim
nos encontraremos em boas vibrações”. “That’s
What It Takes” é um tema semi acústico com duas
melodias em tons distantes, causando uma impressão de raro
e sublime efeito dentro do pop; “Fish On The Sand” é
outro rock forte, com apelo fácil e dançante, enquanto
“When WeWas Fab” (que ganharia um prêmio de melhor
clip no ano seguinte) é uma homenagem aos Beatles e ao tom
psicodélico de “I Am The Walrus”, usando até
a referência do cello tocado em seu arranjo. “Wreck
Of The Hesperus” é um rock parecido com “Savoy
Truffle”, enquanto “Devil’s Radio” é
nova crítica à mídia “propagadora de
boatos”, que usa mais uma vez o rock and roll básico
de três acordes; “Someplace Else” –da trilha
de Shangai Surprise- é uma balada melodiosa dividida entre
o vocal e a guitarra chorosa de George. “This Is Love”
é um pop radiofônico agradável, ficando para
a bonita “Just For Today” o momento de introspecção
tradicional. Este foi, enfim, período daqueles bem esporádicos
na carreira de um artista pop, uma intersecção perfeita
de seu estilo com as roupagens tecnológicas de última
geração e com as exigências do mercado de discos.
Havia uma atmosfera carregada de saudosismo e nostalgia, diante
da carência de artistas inovadores e jovens.
Aproveitando
o seu sucesso e o talento de Lyne para encaixar estilos musicais
tradicionais com cores modernas, George resgatou quase que sem querer
os amigos Bob Dylan e Roy Orbinson do anonimato de suas então
decadentes carreiras para que, junto com Jeff Lyne e o igualmente
ressuscitado Tom Petty, formassem os Travelling Wilburys.
A
brincadeira nasceu de uma jam session que tinha como objetivo a
gravação de uma canção nova de Harrison,
“Handle With Care”, para o lado B de um single de “Cloud
Nine”. Animados com o resultado, eles resolveram compor pequenas
canções durante essas jams, e em pouco tempo possuíam
número suficiente de faixas para um álbum inteiro.
Lançado em outubro de 88, o “Volume 1”, como
foi chamado, seria uma continuação do clima pop empolgante
de “Cloud Nine”, com muito rock and roll básico
e country-rocks deliciosos, perfeitamente interpretados pelas cinco
legendárias vozes e com a marca mais do que evidente de Harrison
como seu principal artesão. Não por acaso, as duas
músicas que estouraram no rádio tem sua criação
mais consistente pelas mãos do ex-beatle: “Handle With
Care” e “End Of The Line”. Cada “irmão”
Wilbury interpretou um número vocal solo, e o de George foi
na popíssima e animada “Heading For The Light”,
inteiramente composta por ele. Como detalhe, os cinco músicos
usaram pseudônimos no encarte, e suas fotos buscaram parecer
bem discretas a ponto de não revelar-lhes a verdadeira identidade.
Mesmo assim, o CD vendeu imensamente, permanecendo por meses em
primeiro lugar nos dois lados do Atlântico, até aqui
no Brasil! Parecia que Harrison havia finalmente voltado para a
moda. Sua carreira estava revigorada e renascida. Um feito que Paul
McCartney, o beatle que mais sucesso conquistou em sua carreira
solo, já não conseguia mais realizar, mesmo com toda
a publicidade que costumava utilizar. George estava nas alturas!
Querendo
aproveitar a onda favorável, no ano de 89 o guitarrista lançou
uma coletânea chamada “The Dark Horse Years, 1976- 1989”,
quando buscou resgatar seus antigos hits, mesclando-os com os de
“Cloud Nine”, além de 4 novas canções.
Infelizmente, essas novas faixas não eram as melhores composições
de George, e com exceção de “Cheerdown”
–um belo tema composto em parceria com Tom Petty para o filme
“Lethal Weapon”- pareciam sobras das sessões
do recente disco milionário. Para dissabor de George, esta
coletânea não vendeu quase nada, passando batida pelo
público.
Em
1990, os Wilburys, sem Roy Orbinson, (que havia falecido pouco depois
do lançamento do “Volume 1”), lançaram
o segundo CD, batizado ironicamente de “Volume 3”. Apesar
de ser um disco igualmente pulsante e ‘para cima’, repleto
de excelentes canções e ainda mais pesado que o anterior,
“Vol.3” decepcionou nas vendas, ficando distante do
sucesso e das vendas do disco anterior. Muitos acreditaram ser a
maior aparição de Bob Dylan como principal vocalista
um dos motivos para tal fracasso comercial, o que não parece
fazer sentido. A canção que ganhou maior contribuição
de George é a melhor do álbum: “The Devil’s
Been Busy”, um rock pesado e pegajoso. Como de costume, nela
George criticava a mídia dos fofoqueiros, começando
a parecer sem muita imaginação para mudar o enfoque
de suas letras. Sua nova fase de ouro parecia ter chegado ao final.
A verdade é que o modelo de Lyne e de sua sonoridade retro/moderna
havia se esgotado, mostrando mais uma vez que o consumismo impulsiona
a indústria do disco com maior avidez do que a criatividade
de seus membros atuantes pode supor.
Harrison
gravaria uma participação em um programa de TV na
Inglaterra que acabou indo para o ar somente no ano seguinte. Neste
programa, ele aparece tocando a musica “Beetween The Devil
And The Deep Blue Sea”, de Cab Calloway, acompanhando-se de
seu ‘ukelele’. Esta gravação apareceria
10 anos depois no álbum póstumo “Brainwashed”.
Ao
topar o convite do colega Eric Clapton para uma pequena série
de shows no Japão (ele tinha receios de tocar na América
ou na Inglaterra por causa das críticas), George reaprendeu
a tocar suas antigas canções dos Beatles, os seus
sucessos da década de 70 e os mais recentes, do “Cloud
Nine”, apresentando-se durante o mês de dezembro de
1991 com Clapton e sua afiada banda. Essa pequena turnê rendeu
muito dinheiro para George e fez enorme sucesso naquele país,
provocando até mesmo a velha histeria e um enorme alarde
pela imprensa local. Harrison parecia satisfeito e feliz por apresentar-se
ao vivo, tocando pela primeira vez determinadas canções,
como “Piggies”, “Old Brown Shoe” e “Isn’t
it A Pity”, que ganharam versões fiéis aos arranjos
originais. A execução musical do grupo foi impecável,
mas Harrison parecia inseguro demais em alguns momentos, revelando
pouca intimidade com a guitarra e com as linhas melódicas
de suas canções. No ano seguinte, lançou um
álbum duplo com o show na íntegra, “Live In
Japan”, que soou como uma coletânea de greatest hits
ao vivo. Em muitos momentos, como em “Something” ou
em “Roll Over Beethoven”, os arranjos e a interpretação
de Harrison pareciam caricaturais, deixando a desejar em termos
de vibração e energia. Um disco que acabaria sendo
importante tão somente por ser o único registro de
uma turnê de George em vida.
Ele
voltaria aos palcos por mais quatro vezes em 1992: a primeira em
abril, em Londres, quando realizou um concerto em apoio à
uma instituição que se dedicava aos estudos e à
prática da meditação transcendental . Reproduziu
o mesmo repertório executado no Japão e pareceu um
pouco mais seguro, embora desta vez não tenha contado com
o apoio da banda de Clapton. Para delírio geral da platéia
que lotou o Royal Albert Hall, Ringo subiu ao palco e tocou sua
bateria em “While My Guitar Gently Weeps”. A segunda
foi uma aparição de surpresa em um show do amigo Carl
Perkins, em junho, quando tocou com ele “Everybody’s
Trying To Be My Baby”, “Blue Suede Shoes” e “Honey
Don’t”; a terceira foi no show comemorativo dos 30 anos
de carreira do amigo Bob Dylan, em Nova Iorque, em outubro, quando
tocou duas canções do colega: “If Not For You”
e “Absolutely Sweet Mary”, além de ter participado
em “My Back Pages”. A última foi uma nova aparição
de surpresa, desta vez em Los Angeles, no mês de dezembro,
quando tocou discretamente sua guitarra e fez alguns back-vocais
com Eddie Van Halen num show beneficente que este último
organizou. Foi, provavelmente, a última vez que George apareceu
ao vivo em um palco.
Assim,
1992 foi um ano agitado: George apareceu várias vezes em
programas de TV, sendo que em um deles declarou que estava em vias
de começar a gravar um novo álbum, e que depois, sairia
em turnê para promovê-lo. De fato, no ano seguinte,
ele começaria a gravar algumas novas canções
em F.P.H.O.T.S., mas segundo se cogitou na ocasião, teria
havido algum problema técnico no estúdio caseiro de
Harrison. Bobagem. Na verdade, o projeto “Anthology”
dos Beatles, que corria em absoluto sigilo já há meses-
fez com que George optasse pelo adiamento de seu novo disco. Tais
gravações devem ter sido aproveitadas, com certeza,
para o “Brainwashed”. Encerrando o ano em grande estilo,
George recebeu da Billboard o premio “Billboard Century Award”,
por suas contribuições ao mundo da música.
Na
América, o “grunge” ganharia destaque ao devolver
para o rock a selvageria vivida pelos punks 14 anos antes. O ciclo
parecia se repetir. Não se tratava de um movimento tão
criativo e impulsivo como aquele propagado pela new wave e pelo
punk, mas certamente representava novo alento para a indústria
do disco e também para a renovação do rock
enquanto expressão de jovens talentos como Kurt Cobain, por
exemplo. Mais uma vez, os velhos mestres se viam na necessidade
de renovação e reformulação de suas
posturas. Mas muitos deles preferiram buscar seu gás no passado.
Ao
longo dos 22 anos transcorridos entre o fim dos Fab Four até
este período, George sempre se referiu aos Beatles de forma
um tanto rancorosa, como se eles significassem a pior fase de sua
vida. No Japão, ele chegou a dizer : “Estou mais jovem
agora, estou mais feliz, estou cantando e tocando melhor do que
nunca”. Exageros a parte, tal declaração repetia
uma postura já há muito tempo evidente: Harrison declarava
que seu passado como beatle já estava superado e que lhe
trazia más lembranças, que o que lhe importava era
o momento presente. Acontece que o tal momento presente não
estava lá muito agradável -pelo menos no que dizia
respeito a dinheiro- apesar das declarações em contrário.
Comentava-se,
exageradamente, que o ex-beatle estava falido, pois havia descoberto
um rombo milionário aplicado por seu ex-sócio na “Handmade
Films”, Denis O’brien. George entrou com um processo
pedindo uma indenização de milhões de dólares.
Ele venceria a batalha em 1996, quando conseguiu que os tribunais
condenassem O’brien a pagar cerca de 11 milhões de
dólares ao guitarrista. A “Handmade” foi vendida
em 94, por 60 milhões, depois de 15 anos de atividades e
25 filmes.
Se
estava mesmo a beira da bancarrota ninguém pode afirmar com
certeza, mas coincidentemente, George Harrison -que renegava seu
antigo grupo- passou a dedicar-se mais aos relançamentos
e projetos envolvendo material antigo e inédito dos Beatles.
Longas entrevistas sobre a banda estavam sendo gravadas por ele,
Paul e Ringo; Martin havia sido requisitado para remixar e selecionar
takes alternativos e faixas inéditas dos Fabs; as coletâneas
“vermelha” e “azul” foram lançadas
com preço abusivo no mercado em 1993; em 1994, foi a vez
do álbum duplo “The Beatles Live At BBC” chegar
às lojas, enquanto os “Threeatles” Paul, George
e Ringo, acompanhados por Jeff Lyne, gravavam “Free As A Bird”
e logo adiante, “Real Love”, ambas canções
de John Lennon. Estas faixas foram cedidas por Yoko ao projeto que
chegaria no mercado sob forma de três CDs duplos, uma série
de TV e uma caixa com várias fitas em VHS entre 1995 e 1996.
Claro, milhões e milhões de dólares foram lucrados
nesta empreitada ‘beatle’, que fez com que o grupo estivesse
na mídia por dois anos com incrível destaque e sucesso.
Ao contrário de Ringo e Paul, que mantiveram suas carreiras
solo paralelamente a todo esse revival, George acomodou-se de vez,
deitando sobre o ouro de seu ‘passado renegado’ e dedicando-se
apenas às eventuais produções de discos e esporádicas
sessões de gravação de algumas canções
próprias em sua mansão.
Uma
dessas produções foi o álbum “Chants
Of India”, de Ravi Shankar, que ele produziu em 1996. Harrison
tocou um pouco de violão e fez alguns discretos vocais no
disco. No ano seguinte, quando lançaram o material, George
e Shankar foram para a TV para promover o álbum, quando além
de conceder entrevistas, um barbado e cabeludo Harrison deu valiosas
canjas no violão, tocando “All Things Must Pass”,
“If You Belonged To Me” (dos Wilburys) e “Any
Road” (até então inédita). Foi neste
dia, 14 de maio de 1997, que George tocou pela última vez
em público durante sua vida.
Vários
boatos passaram a cercar o nome de George a partir desta fase. Uns
diziam respeito a um possível novo álbum que ele estaria
finalizando; outros falavam de um retorno dos Travelling Wilburys.
Mas os boatos mais assustadores, e que infelizmente eram os verdadeiros,
diziam respeito a um câncer que Harrison tinha descoberto
em sua garganta. A batalha seria longa e fatal, mas por volta de
1998 a doença parecia ter sido curada. Esses dias foram sombrios,
repletos de acontecimentos esquisitos e tensos. George fez declarações
nada elogiosas sobre o novo xodó da imprensa musical britânica,
o grupo Oásis. “Eles não são nada interessantes.
São legais para quem tem 14 anos de idade. Eu prefiro ouvir
Dylan. Os Beatles, por exemplo, agradam quem tem de 7 a 77 anos.
Será que alguém vai se lembrar do Oásis daqui
a 30 anos? Será que alguém vai falar no U2? Uma coisa
que me deixa satisfeito é que nós (Beatles) seremos
lembrados para sempre”. Bono Vox e os irmãos Gallagher
responderam com declarações nada suaves e gentis,
não perdoando a cítrica honestidade de George. Numa
entrevista para a Billboard, Harrison declarou que “não
ouvia nada de música dos outros em casa nem em lugar nenhum.”
E que fazia “questão de não ouvir nada”.
Parecia aborrecido e um tanto revoltado. Quando voltou-se a se falar
no relançamento do disco dos Beatles gravado em Hamburgo,
no Star Club, ele foi quem mais se revoltou com a notícia.
Imediatamente partiu para os tribunais para impedir o lançamento
–como aconteceu em 1977, quando o álbum saiu pela primeira
vez - e foi filmado tentando agredir um fotógrafo na saída
de uma destas sessões do julgamento de seu pedido.
O
fato mais estranho ainda aconteceria no natal de 1999. Um fã
obcecado e histérico invadiu a mansão de Friar Park
durante a noite, agarrou Harrison e o jogou no chão, ferindo-o
superficialmente em um dos pulmões. George só foi
salvo da morte porque Olívia golpeou o invasor com um abajur,
fazendo com que ele desmaiasse até a polícia chegar.
Para completar o quadro de sucessivos acontecimentos sombrios, constatou-se
logo a seguir que o câncer havia tomado os pulmões
de George. Viajar para a América e pela Europa atrás
de hospitais e especialistas na doença passou a ser uma perversa
e cansativa rotina para Harrison. Traumatizado pela agressão
sofrida, ele passou a entrar em conflito com vizinhos da mansão
em Friar Park, entrando na justiça para impedir acessos públicos
que pudessem tirar-lhe a privacidade em seu jardim. Resolveu, então,
passar a maior parte de seu tempo em sua casa no Havaí. Uma
birra de um enjoado senhor de então 57 anos, ou um homem
atormentado por constantes problemas relacionados à sua fama
e pela doença? De qualquer maneira, os temores antigos de
George com sua imagem de “beatle” pareciam confirmar-se.
Em
2000, já abatido pelo câncer, ele ainda encontrou forças
para remasterizar e relançar o clássico “All
Things Must Pass” em um CD duplo, com algumas bônus
tracks. Mas apenas três dessas oferendas extras conseguiram
chamar a atenção dos fãs: a linda “I
Live For You”, que inexplicavelmente ficou fora da edição
original do álbum em 1970, a versão acústica
de “Let It Down” (bem mais reveladora da beleza desta
canção do que a gravação embolada original)
e a nova versão de “My Sweet Lord”, que ganhou
vocal e slide guitar novos. No entanto, esta nova “Lord”
está longe demais do brilho e do carisma da gravação
original. Nestas alturas, o timbre da slide de George parecia revelar
a estagnação de sua técnica de tocar, transformando
o som de seu instrumento em algo um tanto caricato e antiquado.
Chato, mesmo.
Harrison
sabia que dificilmente escaparia da morte. Toda a sua espiritualidade
parecia confortar-lhe nestes dias difíceis e angustiantes.
A última canção de sua autoria que registrou
em vida foi “Horse To The Water”, um tema em parceria
com o filho Dhani que ele gravou para uma coletânea organizada
pelo amigo Jools Holland, em outubro de 2001. Surpreendentemente
swingada e com solos típicos de slide, Harrison realizou
um vocal perfeito para alguém em suas condições.
Sua última canção foi utilizada pelo compositor
para uma espécie de auto-crítica sobre seu vícios
, principalmente o de fumar cigarros: “Alguém que eu
amo tinha um problema/ algumas pessoas buscam para isso alguma verdade/
mas ele preferia um copo de whisky/ eu lhe disse, ‘ei, rapaz,
isso pode te fazer mal’/ ele respondeu ‘tá legal’
enquanto pegava uma outra garrafa”. Como uma última
demonstração de seu humor sarcástico e de sua
ironia aguda, ele criou uma editora especialmente para controlar
os direitos dessa faixa: RIP Music. RIP, para quem não sabe,
é uma sigla usada na Inglaterra para se referir às
pessoas mortas.
Em
29 de novembro, depois de sucessivas internações e
tentativas frustradas, George Harrison veio a falecer. O câncer
havia se espalhado, atingindo seu cérebro. Em seu leito,
recebeu por inúmeras vezes as visitas dos velhos parceiros
Paul e Ringo. Há anos que Harrison havia recuperado sua relação
com McCartney, por quem tinha grande respeito e admiração,
o mesmo acontecendo da parte de Paul. Talvez uma de suas grandes
frustações em relação aos Beatles foi
o fato de Paul –que era amigo de George antes que conhecessem
John- ter se ligado à Lennon e com esse adquirido cumplicidade,
amizade e parceria musical revolucionárias. Provavelmente,
ele se sentia rejeitado por Paul e, posteriormente, por Lennon.
Depois, tais sentimentos cresceram quando sentiu-se coibido pelos
dois em relação à sua atuação
como compositor. As rusgas sempre existiram, mas Macca estava lá,
ao seu lado, em seu leito de morte. A amizade e o amor falaram mais
alto.
Em
novembro de 2002, um ano após sua passagem, o tão
esperado novo álbum de George chegou às lojas, graças
ao trabalho do filho Dhani e de outros velhos parceiros como Jeff
Lyne e Jim Keltner. Ouvir canções suaves e melódicas
como “Pisces Fish” e “Any Road” foi tão
gratificante quanto ouvir os velhos LPs dos anos 70 e o “Cloud
Nine”. “Stuck Inside A Cloud” é uma de
suas canções mais bonitas e sensíveis, um emocionante
depoimento de um homem que sabia estar prematuramente condenado
à morte, mas que insistia em preservar a compreensão:
“Nunca me senti tão louco/ mas ao mesmo tempo nunca
estive tão seguro/ gostaria de ter uma resposta/ mas não
tenho sequer a minha cura”. “Rising Sun” e a instrumental
“Marwa Blues” são outros dois grandes momentos
do disco, transbordando melancolia em melodias delicadas e bonitas.
A
música título é a velha crítica de George
para a sociedade moderna ganhando campo em uma musica inspirada
em Dylan, enquanto “P2 Vatican Blues” é um rock
que destila o sarcasmo de George em cima da igreja católica.
“Looking For My Life” lembra um pouco “Fish On
The Sand”, só que a letra é a confissão
de medo e perplexidade de Harrison diante da falibilidade da vida
que ele acreditava ser segura (foi composta, talvez, depois do atentado
que sofreu em 99). Enfim, “Brainwashed” é um
grande disco póstumo, que mostrou um George Harrison despreocupado
em soar ‘moderno’ ou em competir com as mais recentes
novidades do mercado da música, mas sim em fazer seu som
e preservar suas características artísticas mais profundas.
É um belo testamento.
Resta-nos,
agora, torcer para que Dhani e Olívia tenham mais material
inédito de George, já que o relançamento de
seus discos pela Dark Horse não trouxe nada de muito novo.
George
Harrison foi um artista ímpar. Longe de ser apenas o “quiet
one”, foi um musico sensível e de linguagem própria,
um compositor inspirado e criativo, membro de uma escola privilegiada
de artistas pop que costumavam se orientar pela alma e não
apenas pelas necessidades mais imediatas do rentável mercado
de discos; em meio ao vendaval revolucionário dos anos 60
e do niilismo destrutivo e cético dos 70, George teve a coragem
de assumir-se como um homem espiritualizado, com uma forte personalidade
e um bom humor que equilibrava a sua impaciência e nervosismo
com o fato de ter sido um beatle. Foi o precursor dos artistas pop
que cantavam por causas sociais nobres, como o combate à
fome em Bangla-Desh e a preservação da natureza. Era
um crítico voraz do consumismo irresponsável e da
falta de ética dos meios de comunicação, assim
como da frieza e da aspereza humanas.
Certa
vez, quando procurava por um CD-player numa loja de eletrônicos
na Austrália, Harrison deu azar. Estavam lançando
as coletâneas vermelha e azul dos Beatles em CD naquele dia,
e o burburinho dos fãs fez com que ele ficasse preso do lado
de fora do estabelecimento, irreconhecível pelas pessoas
e pelos guardas durões contratados para a ocasião.
Um destes guardas virou-se para ele e disse: “Ei, rapaz, você
até se parece com um desses caras (Beatles), o George Harrison”.
George respondeu com bom humor e simpatia: “Puxa, sempre me
dizem que pareço com ele! Que coisa, hein?!”.
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