Resenha


GEORGE HARRISON : O DISCRETO ARTESÃO POP

Por Marcelo Sanches

Esta época do ano é sintomática para os beatlemaníacos. Em 29 de novembro de 2001, George Harrison; e em 8 de dezembro de 1980, John Lennon. É desnecessário entrarmos em detalhes circunstanciais de suas passagens logo no início deste texto, mas o fato é que parece estranho que duas pessoas que sempre nos pareceram imortais (e o são, de certa forma) e que nos presenteiam ainda com suas canções e vozes todos os dias, não estejam mais compartilhando da mesma atmosfera que nós. No entanto, a herança mais preciosa para os fãs são as canções e os discos, mais do que qualquer outra coisa.

No caso de Harrison, me deu vontade de ouvir suas canções de forma retrospectiva, atentando-me assim à sua evolução como compositor e músico.


GEORGE HARRISON, UM BEATLE (1961-1969)

A primeira canção em disco de George apareceu no obscuro LP que os Beatles gravaram em Hamburgo, em 1961, acompanhando Tony Sheridan em algumas faixas. Eles tiveram oportunidade de registrar dois temas sem o cover de Elvis Presley, e um desses temas era “Cry For A Shadow”, parceria de Harrison com Lennon!

Essa canção instrumental revela apenas que eles estavam buscando inspiração nos Shadows, craques da época em interpretar as melodias com uma guitarra ainda sem pedais e recursos tecnológicos, o que os obrigava a serem precisos nas notas e fieis ao tema melódico; não havia recurso teórico para improvisos e variações sobre o tema, como faziam os jazzistas, mas ainda assim era imprescindível que se tocasse de forma límpida, pois não existia a sujeira de um pedal overdrive ou um chorus para disfarçar a limitação técnica com efeitos mirabolantes. Um outro grande mestre do jovem Harrison foi Carl Perkins, de quem seria um grande amigo tempos depois. Essa foi a escola de George em seus primeiros anos. Com o passar do tempo e com a necessidade de ampliar o repertório, os Beatles tocavam por horas e horas, e foi natural que tivessem que inventar seu próprio estilo de tirar a música de seus instrumentos. Como tocavam quase tudo -rock and roll, twist, rockabilly, rhythm ‘n’ blues, baladas de jazz e até boleros-, seu material para compor ganhou amplitudes diferenciadas, pois John e Paul não se restringiam às cadências habituais de três acordes para abrigar suas melodias, usando variações harmônicas um pouco mais complexas e encadeamentos um tanto estranhos ao rock and roll básico. Para acompanhar essa demanda musical, eles tiveram que crescer como músicos, como ressaltei. Foi nesta fase, entre 60 e 62, que Macca assumiu o contrabaixo (Stu havia saído) e adquiriu uma técnica peculiar (poucos cantam e tocam contrabaixo com tamanha segurança), enquanto John e George assumiam as guitarras. O Velho Ringo, então, entraria no lugar de Pete Best. Quem compara os dois, verá que Starr era um metrônomo, além de um baterista mais criativo que Pete, que por sua vez demonstrava uma hesitação rítmica evidente.

Se Lennon fixou-se na base rítmica, ficou para Harrison a missão de fazer a diferença nos solos e em complementos timbrísticos diferentes da guitarra do colega, pois seria pouco enriquecedora uma execução musical com dois instrumentos fazendo a mesma coisa. Quando Lennon tocava um lá maior mais grave e básico, George tinha que tocar o mesmo acorde uma oitava acima (ou com inversões de acordes) para que a reprodução da música ganhasse um colorido vibrante. Para solar, George passou a executar uma técnica interessante: os blocos de notas e tríades. Seus solos eram centrados nos acordes, e não tanto em escalas pentatônicas ou quaisquer outras. Um exemplo: “All My Loving”. Isso não quer dizer que ele não soubesse realizar solos sem o recurso de dedilhar as notas de um acorde; “Till There Was You” tem um dos solos mais bonitos de Harrison na primeira fase EMI dos Beatles. Ali já tínhamos um guitarrista com estilo próprio e delicado e um compositor em vias de arriscar seu primeiro vôo.

“With The Beatles” é um disco crucial na primeira fase do grupo. Afinados, afiados e entrosados, os quatro jovens músicos/compositores estavam na dianteira do pop, abrindo caminhos. Foi neste álbum que George gravou sua “Don’t Bother Me”, segunda canção a aparecer em disco com sua assinatura. Mas podemos considerá-la a primeira, já que em “Cry For A Shadow” ele dividiu a criação com John. Harrison sempre se referiu à “Don’t Bother Me” com certo desdém, chamando-a de “simplória”. Não se trata de um clássico, óbvio, mas é um tema melodioso e agradável, que mostrou na ocasião, que o guitarrista principal dos Beatles estava aprendendo o ofício com eficiência. Afinal, tinha ao seu lado dois magníficos colegas compositores e um maestro que entendia de musica como poucos, Sir George Martin.

Durante 1964, George pouco arriscou em compor, pois ainda não havia adquirido confiança suficiente. Já em 65, no disco “Help!”, eis que surgem duas lindas composições de sua autoria: “I Need You” e “You Like Me Too Much”. A primeira é um tema melódico belíssimo, com uma melodia secundária que traz uma solução de passagem (quando se volta de uma segunda melodia para a principal) um tanto estranha ao pop, ou seja, não tão óbvia como se podia esperar (a parte que diz “...and feeling like this/ i just can’t go on anymore”). A segunda, mais próxima do estilo Lennon/Mccartney, é outra pérola de composição melódica forte e inspirada. Meses depois, em “Rubber Soul”, Harrison apareceu ainda melhor com “Think For Yourself” (com uma harmonia vocal que judiou de John Lennon durante as gravações) e “If I Needed Someone”, até então sua melhor composição e uma concretização do guitarrista como compositor. Como músico, George havia inserido no universo timbrístico do rock o som da Rickenbacker de 12 cordas no álbum “A Hard Day’s Night”, em 1964, com um dedilhado suave que inspiraria grupos como os Byrds, por exemplo. Com a explosão de guitarristas mais agressivos e rápidos como Eric Clapton (seu grande amigo), Jeff Beck, Pete Townshend, Jimi Hendrix e tantos outros, ficou evidente que ele, George, ficaria de fora da categoria de “guitarrista de rock”, pois continuava solando de forma singular, sem efeitos ‘sujos’ ou muita velocidade no seu jeito de tocar. Seus solos eram considerados “tímidos” perto daqueles que se faziam na época, pois continuavam privilegiando a melodia e as notas secas, além dos tradicionais dedilhados de acordes. Foi uma espécie de definição de sua identidade no mundo da música pop; o guitarrista George Harrison estacionaria um pouco, deixando até que alguns solos mais rápidos ficassem sob responsabilidade de Paul McCartney (em “Ticket to Ride” e em “Taxman”), mas o compositor George Harrison crescia vertiginosa e incontrolavelmente. E de forma brilhante.

Vários fatores colaboraram para tal: os Beatles estavam cheios de tocar ao vivo para ninguém escutar (a gritaria era absurda) e com isso apegavam-se cada vez mais ao estúdio para suas experiências musicais. De fato, ao vivo, eles estavam medíocres, tocando mal seus instrumentos e errando acordes e harmonias vocais com freqüência cada vez maior (ouçam “Day Tripper” no show do Japão em 66 e sintam o drama).

George havia encontrado na sítar indiana (é sua a primeira gravação do instrumento na musica popular, em “Norwegian Wood”) o caminho não apenas para a música daquele país, mas para sua filosofia de vida. Ele seria um dos principais responsáveis pela guinada dos Beatles, e de certa forma, da juventude da época em direção à meditação transcendental e ao psicodelismo no rock. As letras das canções de George deixaram de versar apenas sobre tolas aventuras românticas juvenis, e passaram a centrar-se mais em questões mais profundas e existenciais: a dificuldade de relacionar-se dos casais (em “I Want To Tell You”) e às críticas ácidas e irônicas ao establishment (o pesado rock “Taxman”).

Musicalmente, aproximou-se não apenas da sonoridade indiana, mas igualmente do uso de escalas musicais tradicionais naquela região (“Love You To”). A harmonia de “I Want To Tell You” traz acordes menores dissonantes com quintas diminutas , sétimas e nonas e um clima sombrio, algo incomum nas canções pop da época. Todas essas faixas aparecem no “Revolver”, o definitivo divisor das águas da musica popular ocidental. George passa a ter aulas com o mestre Ravi Shankar, que além de seu professor, seria seu grande amigo até os dias finais. O alegre, despretensioso e feliz ‘beatle’ caçula, portanto, começava a se transformar, acenando para uma personalidade mais forte, madura e peculiar, musical e filosoficamente. Os Beatles, para ele, estavam se transmutando em um modo de vida castrador e sufocante. Publicamente, Harrison deixava de parecer apenas um moçinho bem humorado e engraçadinho, para deixar sua verdadeira personalidade saltar às vistas: discreto, mais sério e um tanto sarcástico, ele não perderia o bom humor jamais, mas mostraria-se cada vez mais avesso à publicidade, buscando privacidade e procurando ser uma pessoa mais reservada. A diferença estava plantada.

Em “Pepper’s” Harrison teve apenas uma canção incluída no set, “Within’ You Without You”, uma continuação da idéia musical de “Love You To”, mas com letra bem mais reflexiva e intimista, externando a proximidade cada vez mais intensa do guitarrista com a filosofia hindu/indiana. Através dele, os Beatles foram ao Maharishi, na Índia, e voltaram repletos de canções para o famoso álbum Branco. Antes disso, George gravou seu primeiro disco solo, resultante de um convite para que compusesse a trilha sonora do filme psicodélico “Wonderwall”, no início de 1968. Inteiramente instrumental e gravado nos estúdios da EMI em Bombaim, esse LP é uma mescla sonora da musica indiana com o rock, uma espécie de extremidade do psicodelismo que os Beatles imprimiam em suas canções desta fase. George pouco tocou no disco, e teve grande auxílio dos músicos nativos na formatação dos arranjos e idéias. Algumas faixas, como “Red Lady Too” e “Wonderwall To Be Here” são temas curtos, porém dotados de uma beleza doce e melancólica, características cada vez mais presentes no estilo de Harrison. O ápice de sua paixão pela musica e filosofia indianas aparece com os Beatles em “The Inner Light”, lado B de “Lady Maddona”, faixa gravada nos mesmos dias de “Wonderwall”.

Tais estilos configuraram-se com extrema beleza em suas canções do disco duplo. “While My Guitar Gently Weeps” fez com que Lennon, McCartney e Martin se tocassem de que havia um novo grande compositor dentro do grupo; nesta faixa, Harrison usou a simplicidade de uma seqüência harmônica comum para criar uma melodia celestial, melancólica ao extremo, um pano de fundo perfeito para uma letra um tanto desesperançosa (“Eu olho pra todos vocês/ e vejo que o amor está adormecido/ enquanto minha gentil guitarra chora”). O solo nesta faixa é do amigo Eric Clapton, em um dos momentos mais grandiosos da história do rock and roll. Eric fez a guitarra soar como um verdadeiro choro emocionado. Arrepiante!

“Piggies”, é uma paródia do consumismo, lembrando que “em todos os lugares existem porcos/ vivendo vidas de porcos/ levando suas porcas esposas para jantar/ afiando facas e garfos para se fartarem de bacon”. Era o humor sarcástico de Harrison em ação. Esta faixa começou a ser escrita dois anos antes, e teve uma ajuda de Lennon e de Louise, mãe de George, na letra (ele gravaria uma versão desta musica com a parte da letra escrita por John nos concertos no Japão, em 91). Sua melodia é linda, ganhando como contorno um arranjo inspirado na escrita musical de Bach, com direito a harpsichord.

“Long Long Long” marca o início da devoção de Harrison à religiosidade explícita; “Savoy Truffle” é uma de suas canções mais interessantes dentro dos Beatles, ao fundir um arranjo jazzístico de saxofones com um acento rock, em cima de uma melodia em tom menor. Infelizmente, a gravação da faixa –bastante comprimida no processo final de mixagem-, prejudica um pouco sua audição. Depois do Álbum Branco, Harrison começou a requisitar maior espaço para suas canções nos discos do grupo. O conflito ganharia ares de ruptura alguns meses depois, durante as filmagens de “Let It Be”, quando George aborreceu-se com Paul e John e deixou o estúdio com a intenção de não mais voltar. Convencido pelas circunstâncias e com a promessa de que os Beatles não tocariam ao vivo como planejava McCartney para o projeto em andamento (ele era contra tal idéia), George voltou.

A estas alturas, ele possuía uma bagagem incrível de canções. Na verdade, desde 1966, quando aproximou-se da cultura oriental e adquiriu maior autonomia criativa, Harrison passou a compor com freqüência. Em princípios de 1969, seu reduzido espaço nos Beatles estava longe de atender a demanda de composições. George havia ampliado mais ainda seus horizontes ao aproximar-se de Bob Dylan e da country music, despertando interesse pela slide guitar e pela sonoridade mais acústica e lírica deste gênero musical. Passou dias compondo com Dylan na América e tocou com outros músicos, como Clapton, Delanie, Bonnie & Friends e Jackie Lomax. Voltou a desenvolver-se como guitarrista, pois sua evolução nesta fase é marcante. Com os Beatles, sentia-se limitado e pouco considerado, irritando-se com a postura ‘autoritária’ de Paul e com a indiferença de John. Mas no projeto final do filme “Let It Be” conseguiu encaixar duas canções: “I Me Mine” (uma declaração clara de que havia adquirido auto confiança suficiente para ‘peitar’ os colegas, tudo isso forrado com uma melodia inspirada, no início, em cadências que lembravam a musica espanhola) e “ For You Blue”, um número básico de rock and roll. O melhor de George dentro dos Beatles estaria por vir nos meses seguintes. E seria um adeus mais do que luxuoso, um vigoroso tapa com luvas de veludo nas caras de Lennon e de McCartney.

Primeiro foi o lado B do single “The Ballad Of John And Yoko”, com a deliciosa “Old Brown Shoe”, um número pesado de rock com um dos melhores e mais rápidos solos de guitarra já gravados por Harrison (o dueto de sua guitarra com o contrabaixo imponente de Macca nesta gravação é simplesmente sublime). Depois, viria o canto dos cisnes dos Beatles, “Abbey Road”, que trouxe “Something” e “Here Comes The Sun”. A primeira já havia sido composta nos tempos do Álbum Branco, sendo em princípio rejeitada pelo próprio George (comenta-se que Chris Thomas, então auxiliar de Martin durante as sessões de gravação do disco, sugeriu para Harrison que incluísse “Something” no lugar de “Piggies”, que muitos consideravam fraca). Mas valeu a espera. “Something” é um dos temas melódicos mais bonitos da musica popular, uma honesta e realista declaração de amor pela então esposa Patti (“você me pergunta se meu amor vai crescer...eu não sei, eu não sei”) cantada sob uma delicada criação musical que inclui um dos solos mais bonitos feitos por um guitarrista da musica ocidental. Era a consagração de Harrison como criador de uma “melodia dentro da outra”. “Something” foi o primeiro lado A de uma canção sua com os Beatles, indo diretamente para o primeiro lugar dos charts. Seria também sua musica mais gravada, merecendo até uma versão de Frank Sinatra, que pensou que ela fosse mais uma obra da dupla Lennon/Mccartney!!! Paul, na verdade, declarou sem pudores que a musica era, em sua opinião, a melhor do LP.

Fechando o ciclo, no início do lado B de “Abbey Road”, “Here Comes The Sun” revela a tradição que ganharia corpo no estilo composicional de Harrison, que seria transformar um riff de guitarra na melodia principal. Composta sem maiores pretensões num momento descontraído nos jardins da casa de Clapton, “Here Comes The Sun” tem letra otimista (foi como ele combateu o stress das discussões dos Beatles sobre os negócios da Apple) e um excelente trabalho de violões tocados por George, além do inovador uso do sintetizador moog que ele havia trazido para o estúdio, e que criou um clima diferente para o último LP dos Beatles.

Com isso, era como se George Harrison pudesse dizer aos colegas: “Estão vendo como sou tão bom quanto vocês e como vocês erraram ao me reprimir?”. Se disse isso nas entrelinhas, em público ele apenas usou sua orientação filosófica para evidenciar o que sentia nesta ocasião: tudo na vida tem que passar. George caminhou imponente de um lado para o outro na capa de “Abbey Road”, como se soubesse que caminhava para si mesmo e para sua afirmação como compositor e musico. Enfim, o George Harrison beatle foi o grande responsável pelos toques exóticos, dissonantes e um pouco mais introspectivos dentro da musica do quarteto. Ele foi fundamental na transição da banda em sua busca por alternativas musicais e filosóficas.


CARREIRA SOLO NOS ANOS 70

Gravar um disco solo com musicas “normais” para qualquer beatle, até 1970, era uma ofensa, um insulto aos fãs e ao próprio conjunto. John realizara alguns “projetos” (ou seriam dejetos?) com Yoko, salvando-se apenas o “Plastic Ono Band Live Peace In Toronto” em fins de 1969. George havia gravado a trilha de um filme e lançado um disco onde apenas brincava com o sintetizador moog recém-adquirido (“Electronic Sound”, em maio de 69). Depois de “Abbey Road”, John avisou que estava fora e sentiu-se a vontade para lançar o disco ao vivo já citado. Ringo e Paul começariam seus projetos-solo em dezembro daquele mesmo ano. Eles acabariam saindo em abril de 1970 (“Sentimental Journey” e “McCartney”). O disco de Ringo era mais uma brincadeira do que um LP “sério”, pois nele o baterista interpretava antigos standarts da canção popular norte-americana. Mas quando o LP de Macca –com canções fortes e originais- chegou às lojas acompanhado de uma entrevista bombástica, onde ele assumia sua saída dos Beatles e o conseqüente fim do grupo, a revolta foi geral. Os outros três reclamaram da atitude de Paul, acusando-o de “traição”. Principalmente porque o álbum “Let it Be”, dos Beatles, remixado e revisado milhões de vezes em um ano, chegava ao mercado quase que no mesmo dia. Coincidentemente, foi depois que Macca lançou seu LP que George resolveu entrar no estúdio e começar a gravar o seu mais eloqüente e brilhante trabalho solo de toda a sua carreira.

“All Things Must Pass” foi lançado em dezembro de 1970, no mesmo mês em que Lennon lançou sua obra prima visceral, o “Plastic Ono Band”. Ao contrário da crueza e despojamento do disco do colega, “All Things” resultou numa super- produção sonora, com Phil Spector dividindo o comando técnico com Harrison. E, pasmem, o disco era triplo!!!

Este magnífico álbum, na verdade, é o testamento definitivo da melhor fase de Harrison como compositor, pois traz quase todas as canções que ele fez desde 1966 e que não puderam entrar nos discos dos Beatles. A maior parte das canções trazia os fortes traços da filosofia oriental de George em suas letras, além de relatos sinceros de seus sentimentos em relação aos desentendimentos entre os colegas de grupo. “Isn’t It A Pity” (que ganhou duas versões) é a melhor tradutora destes sentimentos: “Não é uma pena?/ como quebramos nossos corações/ e ferimos uns aos outros?”). Linda, longa, simples, melancólica e carregada pela parede sonora envolvente de Spector e por solos emotivos de guitarra, essa canção foi escrita para o “Let It Be”, mas acabou fora. O mesmo aconteceu com a canção título, cuja letra traduz o doloroso final dos Beatles através de metáforas: “A noite não dura pra sempre/ pela manhã ela logo se despede/ todas as coisas passam/ então me mantenho firme em meu caminho/ para encarar o novo dia que amanhece”.

“Beware Of Darkness” traz uma característica definitiva de Harrison, que é desenhar uma harmonia onde subitamente um acorde cai meio tom, mudando o rumo da melodia e provocando uma surpresa no ouvinte. “I’d Have You Anytime” é o resultado da parceria com Dylan no final de 1968, quando George passou alguns dias com ele em sua mansão campestre de Woodstock. A melodia é de George, que usa uma seqüência de acordes com sétimas maiores que imprimem uma sofisticação charmosa e diferente na canção. “Art of Dying” é um tratado filosófico sobre a reencarnação, e que inova pelo uso bem bolado de riffs de guitarra cheios de efeitos. “What Is Life” é um número de pop/rock pesado, que lançado em single meses depois, fez um grande sucesso, com seu riff de guitarra com som distorcido. “Behind That Closed Door” é o debut de George na country music com uma excelente melodia, enquanto “Run Of The Mill” e “Apple Scruffs” se aproximam do folk com um lirismo especial. “Awaiting On You All” e “Hear Me Lord” são números de gospel inspirados no trabalho de Billy Preston, grande tecladista amigo de Harrison que havia tocado com os Beatles no “Let It Be” e que participou de todas as gravações de “All Things”. Havia ainda uma excelente versão para “If Not For You” de Dylan e outra faixa original, “Let It Down”, esta última uma melodia elegante com uma harmonia diferenciada que acabou sendo prejudicada pelos excessos da produção carregada de timbres. Canções menores como “I Dig Love”, “Ballad Of Sir Frankie Crisp” e “Wah-Wah” também tem um resultado agradável, embora sejam inferiores ao material do disco como um todo. Claro, neste álbum está o méga hit “My Sweet Lord”, que vendeu milhões de cópias em todo o planeta durante 1971 e que mais tarde traria transtornos para o ex-beatle, que foi acusado de cometer plágio em cima de “He Is So Fine”, dos Chiffons, fato que seria comprovado. Tal dissabor somaria um prejuízo de milhares de dólares para George anos depois. O LP de número 3 trazia apenas o registro de algumas jams sessions realizadas entre as gravações, com destaque para “I Remember Jeep”, com Clapton e George nas guitarras e Ginger Baker na bateria. “All Things” teve ainda participações fundamentais de Ringo, Jim Keltner, Klaus Voormann, do grupo Badfinger e de Dave Mason, entre outros. Foi o primeiro álbum triplo a alcançar o primeiro lugar nas paradas e a vender milhões de cópias. A imprensa musical, embasbacada, definiu Harrison como um compositor tão brilhante quanto Lennon e McCartney. E tudo indicava que uma grande e nova carreira estava nascendo ali.

Havia uma pessoa apenas que poderia atrapalhar os planos de George Harrison: ele mesmo. Com o sucesso de “All Things”, o fim dos Beatles e seu reconhecimento definitivo como compositor, ele parecia redimido. Infelizmente, o efeito causado por tamanho estardalhaço foi uma acomodação que ganharia espaços a cada ano que chegava. Em 1971, seu maior feito foi organizar e conduzir o concerto para Bangla-Desh, em 1 de agosto, no Madison Square Garden de Nova Iorque, e que foi o primeiro evento beneficente da história do rock, juntando estrelas como Dylan, Clapton, Leon Russell, Ringo, Billy Preston e Ravi Shankar. Foi o citarista quem pediu ao amigo George a sua realização, em benefício dos famintos de sua terra natal. O show, realizado em duas sessões, foi um enorme sucesso tanto de público quanto em lançamento de mais um disco triplo de sucesso e um filme milionário no início de 1972.

George também atuou em “Imagine”, de Lennon, realizando um ótimo trabalho de slide guitar, além de ter tocado e produzido discos de Ringo (o excelente e bem sucedido single com “It Don’t Come Easy”) e artistas como o Radha Krsna Temple, Badfinger, Billy Preston, Ronnie Spector, Doris Troy e tantos outros. Mas de inédito, Harrison lançaria neste ano apenas um single com “Bangla-Desh” e “Deep Blue”, a primeira resultando numa canção eficiente e instigante, com um chamado de ação para o problema da fome na Índia. A segunda ele compôs para a mãe, que havia falecido um ano antes. Como detalhe interessante, foi neste single que a voz de George mudou ligeiramente de timbre, ficando mais aguda, o mesmo acontecendo com sua slide guitar, com um som que viraria sua marca registrada pelo resto da vida.

George só voltaria a editar um novo LP e um novo single um ano e meio depois, no início de 1973, quando lançou “Living In The Material World”. Este álbum trouxe um grande sucesso, “Give Me Love”, um de seus grandes temas melódicos com sabor de mantra-pop, na esteira de “My Sweet Lord” (mas sem plagio!). Sua técnica no slide estava ainda melhor, e Harrison parecia crescer como musico de identidade singular . O LP não parava por aí; a música título é um de seus melhores momentos, um rock forte que ganhava contrastes na mudança melódica e climática que alternava o ritmo rápido com uma suave e relaxante segunda parte indiana. A letra criticava, mais uma vez, o consumo e as luxúrias do “mundo material”, e até John e Paul entraram na dança dos ‘pobres mortais que desprezam à Deus’...

Este LP traz outras grandes canções, como “Don’t Let Me Wait Too Long” (um rock com um letra leve e romântica), “That Is All” (uma doce e lenta balada escrita para Krisna), a dramática “Try Some Buy Some” (feita para Ronnie Spector e que relatava uma surpreendente abordagem do uso indevido de drogas) e o ótimo blues-rock que ironizava as batalhas judiciais dos ex-beatles (“Sue Me Sue You Blues”, também gravada por Jesse Ed Davis). Outros bons momentos estão inclusos, mas um detalhe que desagradou aos críticos e fãs foi a persistência do discurso religioso. Além do mais, o contraste entre o luxo em que George vivia na sua imensa mansão de Friar Park, em Londres, com suas críticas ao “mundo material”, começavam a soar como contradições descaradas demais para que suas chamadas à “conscientização espiritual” fossem levadas a sério.

Pessoalmente, George começava a viver um período complicado. Seu casamento com Patti Boyd chegaria ao final no ano seguinte, 1974, quando ela finalmente foi viver com o melhor amigo de George, Eric Clapton. O que se sabe é que ele pouco se importava com a esposa, abandonando-a na imensa mansão enquanto eventualmente se envolvia com outras mulheres, entre elas a esposa de Ringo na época, Maureen. O ex-beatle também vivia às turras com McCartney e Lennon no que dizia respeito aos entraves burocráticos da Apple, gravadora dos Beatles. Com a explosão de todos esses fatores, George passou a beber exageradamente e a freqüentar festas entre a América e a Europa, dando ainda mais espaços para seus detratores, que começavam a considerá-lo incoerente e ultrapassado, alguém com um discurso religioso cínico e não condizente com seu verdadeiro comportamento.

Tudo isso refletiu-se em sua produção musical e em sua vida pessoal. Para fugir da solidão causada pela partida da esposa, George entregou-se ao trabalho. Criou sua própria gravadora, a “Dark Horse Records”, que seria distribuída mundialmente pela poderosa A&M, e passou a produzir discos de outros artistas com freqüência, entre eles Ravi Shankar e o duo Splinter; finalmente, resolveu partir para uma turnê pela América do Norte em novembro, acompanhado por um time fantástico de músicos (Shankar & Family, Billy Preston e a banda californiana L.A Express). Para coincidir com os shows, Harrison lançou às pressas um novo LP em dezembro, também batizado de “Dark Horse”.

O álbum foi literalmente massacrado pela crítica. Na verdade, George estava revelando uma certa desorientação musical, pois produziu o disco ao longo do ano em estúdios diferentes, com equipes e épocas distintos e músicos variados, que mudavam de faixa para faixa. O resultado foi um disco irregular, que incluiria boas canções como a faixa título (um excelente número acústico com toques de musica indiana) e a climática “Maya Love”, que inovou pelo uso do funk na panela musical do guitarrista. “Hari’s On Tour” é um bom número instrumental que namora de leve o jazz-rock, e “So Sad” é uma boa canção de acento folk, com ótimo trabalho de violões, mas infelizmente prejudicada pelo vocal esganiçado do ex-beatle, cuja voz parecia tornar-se cada vez mais aguda e inconsistente, com a passagem dos anos. E por falar nisso, para complicar as coisas, Harrison ficou rouco durante as gravações finais do disco, em função dos longos ensaios para a turnê que se iniciaria a seguir. “Dark Horse”, ainda assim, seria um single de sucesso e puxaria o álbum para os 10 mais vendidos da América e Europa no início de 1975.

A turnê, que durou quase dois meses, acabou sendo um dos maiores fiascos da carreira de George. O público não aceitou sua decisão de incluir o set indiano de Shankar no repertório dos shows. A platéia queria, de fato, o beatle Harrison tocando suas canções dos tempos dos Beatles, com arranjos fiéis aos originais. Ao invés disso, George tocou algumas canções do ainda não lançado “Dark Horse”, outras do “Material World”, além de ter mudado os vocais e arranjos de “Something”, “What Is Life” e “While My Guitar Gently Weeps”, transfigurando-as completamente, a ponto de alterar-lhes até as letras. Além do mais, sua voz acabou antes da turnê começar, e a banda que o acompanhava tinha a clara orientação musical funk/soul de Billy Preston, que em determinados lugares chegou a entusiasmar a platéia com melhores resultados do que George. Ás vezes, inconformado com a baixa receptividade, ele perguntava para o público: “Tem alguém vivo aí embaixo?”

Alguns episódios curiosos e deprimentes aconteceram nesta ocasião; sensibilizado pelas críticas negativas ao amigo, John Lennon foi ao encontro de Harrison para oferecer-lhe apoio e eventualmente uma participação especial em alguns shows. Infelizmente, as discussões sobre a Apple azedaram tais possibilidades e George acabou se magoando com algumas posturas de John diante deste problema. George chegou a berrar com o colega e a jogar seus óculos para longe quando tentou lhe acertar um soco! “Eu segurei essas apresentações sozinho até agora e dispenso sua ajuda! E sozinho vou terminá-las!” teria gritado o guitarrista para Lennon. Mesmo assim, John compareceu a algumas apresentações e permaneceu ao lado de George nos bastidores e na festa de encerramento da turnê. Depois destes dias, os dois amigos jamais se encontrariam em vida outra vez.

Como curiosidade, Harrison incluiu no repertório dos shows a faixa “In My Life”, de John, e a dedicava aos ex-colegas, agradecendo-os sempre no final da canção. Quando questionado sobre uma possível volta do quarteto, ele se enfurecia: “As pessoas insistem em viver no passado, esquecendo-se do momento presente. Se vocês querem viver no passado, assistam aos Wings, e esqueçam de mim!”, declarou certa vez no meio da excursão. De xodó da imprensa especializada, ele passava à vilão. Será que a fase de ouro da carreira solo de Harrison havia chegado ao final de forma prematura? E aqui fica outra pergunta: a antiga carência de espaços para ele nos discos dos Beatles e a falta da saudável competição entre eles estaria afetando o talento de Harrison como compositor?

Se dependesse do álbum lançado no ano de 1975, a resposta ainda seria complicada e causaria mais dúvidas. “Extra Texture” foi gravado rapidamente para que se liquidasse o compromisso de Harrison com a EMI/Capitol/Apple. A bem da verdade, todos os ex-beatles desejavam o final deste contrato, que tantas dores de cabeça provocou neles durante anos, por sua confusa distribuição de royalties e outros direitos autorais. Na ocasião em que foi lançado, o disco causou uma impressão geral ruim. O single com “You” –uma canção antiga composta e gravada em 1971 por George para que Ronnie Spector cantasse- teve desempenho razoável, a despeito de a canção não ser de má qualidade. A ex-esposa de Phil Spector a rejeitou na ocasião, e Harrison, carente de um número de apelo comercial mais consistente à sua disposição, acabou por recuperá-la acrescentando nela um novo vocal. E foi sua voz aguda que comprometeu a faixa, fazendo com que ela perdesse força, não se adequando em sua melodia. Mas sem dúvida, “You” está longe de ser uma das melhores composições do ex-beatle. No LP, o material todo soou bastante melancólico e triste, demonstrando que seu compositor não estava vivendo uma boa fase pessoal e criativa. A produção acabou sendo incapaz de dar variedade às canções, e ficou evidente que George teve que recorrer a temas já um tanto antigos, que permaneciam até então incompletos, para fechar um álbum. Letras que falavam de solidão e descrença no comportamento moderno, acompanhadas por arranjos com ênfase nos teclados e sintetizadores, imprimiram um ar sombrio e depressivo no disco como nunca se havia ouvido em trabalhos anteriores de George Harrison. Sua slide guitar pouco aparece no LP; com o passar dos anos, e com audições esporádicas, “Extra Texture” revela canções interessantes, como a filosófica e meditativa “The Answer’s At The End”, a suave e romântica “Ooh Baby” e a boa “Can’t Stop Thinking About You”, feita claramente para Patti. Numa fase em que o mercado pop pedia faixas dançantes e hits com letras despretensiosas e inócuas, este álbum foi um anti-clímax. Se fosse lançado na fase dark que dominaria o rock inglês de vanguarda anos depois, “Extra Texture” não pareceria tão dissonante. De qualquer maneira, chegava ao fim um período de pouca criatividade para o ex-guitarrista dos Beatles. George melhoraria e muito nos dois trabalhos seguintes, recuperando a energia e o pulso de sua grande fase de 1968/69.

Não sem antes de mais algumas dores de cabeça. O processo por plágio em “My Sweet Lord” atormentaria o guitarrista durante os próximos anos, não dando refresco à George após as encrencas com a Apple. Para complicar mais sua situação jurídica, a A&M achou que ele estava demorando demais para entregar um novo LP e acabou por processa-lo por quebra de contrato. George perderia milhares de dólares nos dois processos; como resultado, acabou contraindo uma forte hepatite que o jogou na cama por dois meses, logo após a conclusão das gravações do novo álbum, em meados de 1976. A única coisa boa em sua vida parecia ser Olívia Arias, namorada de George há dois anos e que havia sido secretária da A&M Records, onde o conheceu. Morando com Harrison, ela foi fundamental no processo de sua recuperação emocional e física.

“33 and 1/3” (uma referência à sua idade na época) acabou saindo em dezembro de 76 pelo selo Dark Horse de George, que por sua vez seria distribuído pela Warner, gravadora que o acolheria pelos próximos 16 anos. E resultou num excelente disco, imediatamente saudado por fãs e críticos como uma ‘volta’ aos bons tempos de “All Things Must Pass”. E de fato o é, embora com um estilo de música substancialmente diferente e mais swingado. Com participações marcantes de músicos negros de funk, rhythm ‘n’ blues e jazz-rock como Willie Weeks, Billy Preston e Andy Newmark, o álbum traz uma marca forte de todos esses ritmos, fazendo com que George parecesse em dia com o que melhor se fazia no pop (o punk ainda estava incipiente em 1976). Além disso, seu trabalho na guitarra e na idealização dos arranjos estava melhor do que nunca. É a melhor fase de Harrison como guitarrista. Seus solos , ora rápidos, ora melódicos, resgatavam seu inegável talento para o instrumento. Há no LP rocks vigorosos como “Woman Don’t You Cry For Me” e “This Song” (uma delirante paródia ao julgamento por plágio em “My Sweet Lord”), um quase funk (a ótima “It’s What You Value”), um folk denso e belíssimo (“Dear One”), baladas com temperos dos Beatles da fase “Rubber Soul” (“Beautiful Girl”, “Learning How To Love You”, esta última lindíssima), e pop da melhor qualidade ( “See Yourself” e “Crackerbox Palace”, esta o maior hit do LP). Há ainda “Pure Smokey”, uma singela e elegante homenagem para Smokey Robinson e à soul music. Para completar, George gravara uma versão muito singular da clássica “True Love”, de Cole Porter. O velho Harrison estava de volta com um disco para cima, otimista, que havia dispensado as letras de cunho religioso/melancólico, para voltar aos temas mais joviais e de maior receptividade junto ao mercado pop, o que fez com que ele conquistasse novos fãs.

Este mercado, por sinal, vivia uma transição entre o velho rock progressivo e o hard rock, para canções pop mais funkeadas, de um lado, e o punk rock emergente na velha terra da rainha de outro. George não enveredou aqui para uma música apelativa e banal que tanto caracterizaria a disco-music (febre que assolou o mercado de discos nesta época), como faria Ringo logo a seguir, nem ao rock mais agressivo, mas reinventou-se e arejou seu estilo musical -que eu apropriadamente chamo de soft-rock- dando-lhe novo fôlego e vigor. “33” teve boa acolhida do público e de vendas, embora tenha ficado longe das marcas milionárias de “All Things” e “Material World”. Uma excelente fase, afinal!

O lançamento de “33” teve uma boa promoção. George apareceu em alguns programas de TV, gravou dezenas de entrevistas, veio para a América, circulou pela Europa e gravou três clipes promocionais para faixas do disco. Mas não chegou a tocar ao vivo. O trauma pela turnê americana o impediria de se apresentar ao vivo em uma longa série de shows até 1991, quando Clapton o convenceria a excursionar pelo Japão. Com o satisfatório sucesso do novo LP e a boa acolhida da crítica, o ex-beatle recolheu-se com Olívia, passou a freqüentar corridas de F1 e deu um tempo na música e nas aparições em público, a exemplo do que fazia John Lennon. Analisando de hoje, esse devia ser um comportamento circunstancial de Harrison: quando ele conseguia produzir um trabalho de sucesso, isso parecia lhe dar tranqüilidade e segurança para diminuir o ritmo e se acomodar. Na verdade, também, George odiava publicidade e detestava ter que promover seus discos. Ao mesmo tempo, adorava que eles chegassem aos primeiros lugares, claro! Há ainda outra hipótese para seu sumiço, pelo menos nesta fase: a infindável briga pela acusação de plágio em “My Sweet Lord”, que ainda aconteceria pelos tribunais até o ano de 1981. Em uma entrevista concedida no início de 77, um irritado Harrison comentou: “Eu fico nervoso toda vez que componho uma nova canção, porque suspeito que alguém com um computador vai pegar essa canção, analisa-la e depois dizer se ela é minha, ou não. Fico nervoso porque não quero passar o resto de minha vida em tribunais. Pode ser que exista um louco que pense ‘bem, pegaram o Harrison com My Sweet Lord, então vamos lá, vamos processa-lo também’. Eles podem processar o mundo! Eu fico paranóico quando vou compor, porque penso ‘Deus, se eu tocar a guitarra ou o piano eu posso estar tocando uma seqüência de notas de alguém!, um cara qualquer pode ser dono desta nota, é melhor você tomar cuidado!”.

Enquanto dava um tempo do mercado fonográfico, seu interesse por cinema estava aumentando, em função de suas amizades com a turma deste meio –gente como Peter Sellers e o grupo Monty Phyton- e em breve o guitarrista estaria produzindo filmes de sucesso e criando sua produtora, a “Handmade”, em sociedade com seu empresário Dennis O’brien.

Durante a curta ausência de George do mundo do disco, muita coisa havia se transformado. O rock estava sofrendo sua mais séria mutação desde os tempos do psicodelismo, dez anos antes; O punk assolava a Inglaterra, na esteira do desemprego e da falta de perspectiva dos jovens. Com guitarras incendiárias e uma batida básica e áspera em cima da velha cadência tonica-subdominante-dominante, os jovens roqueiros eram implacáveis nas críticas aos antigos ídolos, acusando-os de estarem ricos e acomodados; eram extremamente violentos e auto-destrutivos, se drogavam com drogas pesadíssimas e não sustentavam suas carreiras por mais que três anos. Mas a marca que deixaram no rock foi histórica e essencial: viraram-no de ponta cabeça e injetaram uma vitalidade incrível na musica popular: Sex Pistols, The Clash, Joy Division, XTC, The Police, The Banshes, Elvis Costello, etc; suas letras não eram nada idílicas, pelo contrário: o niilismo havia tomado conta do cenário, juntamente com a visão sombria de uma sociedade decadente e caótica. Na América, mais exatamente em Nova Iorque, uma legião de jovens músicos tocava pelos pubs e pequenos teatros, reinventando o rock com elementos não só do punk, mas igualmente com a nova poesia de rua, reggae, ska, new-folk e power-blues: Talking Heads, The Ramones, Dead Kennedys, Patti Smith, etc. Nos EUA, esse movimento ganhou o nome de new wave. Na Alemanha, havia o desenvolvimento do tecno-rock, musica tocada por computadores e sintetizadores de ultima geração, através de artistas como o grupo Kraftwerk e os ingleses Brian Eno e David Bowie, este último sempre buscando novas referências para sua música. Havia novamente muita criatividade no ar e novas formas de se interpretar a musica pop. O mundo parecia cada vez mais interligado pelo desenvolvimento das mídias e pela chamada ‘mundialização’ dos meios de produção, inclusive o avanço das grandes multinacionais do disco, que podiam pegar elementos musicais africanos, por exemplo, e injeta-los no mercado americano (embora o movimento contrário tenha sido sempre mais forte). De qualquer maneira, o final dos anos 70 representou um sopro tão importante na musica popular quanto o foram os anos 50 com a explosão de Elvis, os 60 com os Beatles e a “invasão inglesa”, e o final dos 60 com o psicodelismo. Os velhos ídolos destas fases, por exemplo, estavam em maus lençóis. Uma mudança se fazia necessária, e rapidamente. Assim, os Rolling Stones voltaram a tocar rock and roll básico para responder às críticas dos punks; Bob Dylan aproximou-se da nova country music dos ingleses do Dire Straits, embora tenha surpreendido o mundo com sua conversão ao cristianismo; Lou Reed foi aceito como um mestre entre os punks por permanecer fiel à sua música ácida e corrosiva. E os ex-beatles? Por onde andavam enquanto a casa caía?

Enquanto Lennon vagava entre o Japão e Nova Iorque, tutelado por Yoko , compondo alguns temas que permaneceriam inacabados para sempre, Paul e Ringo gravavam discos ruins, banais, incolores e superficiais, titubeando o primeiro entre baladinhas açucaradas e rocks caricaturais e sem força, e o segundo entre alguns countrys inócuos e a mais ridícula disco-music. Foi preciso que a EMI buscasse em seus arquivos algumas gravações ao vivo dos Beatles no Hollywood Bowl, nos anos de 64 e 65, para fazer com que eles voltassem a chamar a atenção da mídia e público para a genialidade e energia antigas. O LP “Hollywood Bowl” chegou ao topo das paradas em 1977, sendo que no ano anterior uma surpreendente onda de beatlemania sacudiu a América da new wave e a Inglaterra do punk. O passado dos Beatles começava a conspirar contra o presente dos ex-beatles, lembrando-os de que um dia eles haviam sido criativos e absolutamente impecáveis.

George Harrison teve um ano diferente, em 1978; seu filho Dhani nasceu em 1 de agosto, e o guitarrista oficializou sua união com Olívia um mês depois. A vida parecia tranqüila e sem muitos percalços para Harrison, depois de anos e anos de processos, uma turnê mal sucedida e uma carreira cheia de altos e baixos. Agora, seu divertimento eram as corridas de F1. Foi justamente numa corrida destas que George voltou a inspirar-se o suficiente para apanhar a guitarra e recomeçar a compor. Na seqüência, outros temas foram aparecendo, e no final do ano, Harrison já estava com novo material gravado em seu estúdio caseiro, o F.P.H.O.T.S. O novo LP saiu em fevereiro de 79, chamando-se simplesmente “George Harrison”.

Em contraste com a violência do punk e com o colorido criativo da new wave, George produziu um álbum atípico para a época, totalmente fora dos padrões pop que se constituíam então. Mas por outro lado, registrou com eficiência o seu som pessoal, sua marca registrada: o soft-rock banhado por sua slide guitar e por arranjos de teclados e sintetizadores, com auxílio de músicos como Steve Winwood, Gary Wright e, novamente, Eric Clapton, com quem havia retomado a forte amizade. Diferentemente de “33”, este álbum resultou num trabalho mais sereno, mais comedido e suave, repleto de canções doces e letras em sua maior parte românticas e lúdicas. A bonita e otimista “Blow Away” foi lançada em single e teve bom desempenho junto às emissoras de radio e TV, ganhando inclusive um singelo clip. “Love Comes To Everyone” é uma das mais leves e alegres faixas de George, demonstrando que ele estava de bem com a vida. “Your Love Is Forever” é uma bela canção de amor, enquanto o rock moderado “Faster”, a canção feita em homenagem aos novos amigos de Harrison –os pilotos de F1- é uma de suas canções mais fortes destes tempos. “Here Comes The Moon” é um bom número acústico, ao passo que a antiga “Not Guilty”, feita originalmente para o Album Branco dos Beatles, 10 anos antes, ganhou a luz do dia num arranjo bem mais acústico e delicado que a versão do quarteto.

Bem recebido por crítica e público, “George Harrison” acabou sendo mais um bom momento da carreira de George, que diferentemente de Paul e Ringo, não cedeu aos modismos disco da época, e nem tentou ‘sujar’ seu som como os punks, embora se distanciasse na mesma proporção da inovação sonora que conquistava a musica pop em suas vertentes mais criativas e revolucionárias. Os tempos, definitivamente, eram outros, e muito em breve Harrison sentiria a pressão da Warner em função de sua deslocada posição no cenário pop.


GEORGE NOS ANOS 8O

Animado com o resultado do disco anterior e mais envolvido com a produção de filmes (que traziam bons resultados, principalmente o clássico A Vida de Brian), George continuou compondo e gravando esporadicamente durante o ano de 1980, surpreendendo os fãs que imaginavam que ele fosse sumir novamente. Quando finalizou as sessões e entregou o master de um novo LP para a Warner, em outubro de 80, George teve uma surpresa. A gravadora pediu a ele que retirasse algumas canções mais lentas e não muito comerciais para substituí-las por outras mais rápidas e de apelo mais palatável, que o mercado de discos exigia naquele momento. Bronqueadíssimo, ele voltou ao F.P.H.O.T.S. para gravar 4 novas canções. Para piorar sua raiva, a gravadora também pediu que ele mudasse a capa do álbum, que já estava pronta.

Harrison estava finalizando essas sessões de gravação inusitadas quando recebeu a notícia do assassinato de John. Atordoado, ele se refugiou por dias em sua mansão, recusando-se a falar com a imprensa.

Pouco se sabe sobre um possível contato dos dois ex-parceiros depois daquele incidente de 1974 na América. Mas especulou-se que George havia telefonado para John oferecendo-lhe ajuda no LP “Double Fantasy”. Infelizmente, não conseguiu falar com Lennon, e o recado, com isso, foi passado para Yoko, que não o transmitiu para John. De qualquer maneira, o choque deve ter sido acrescido de um enorme complexo de culpa, pelo fato de eles não terem mais recuperado sua antiga amizade e também por Harrison ter tratado o ex-parceiro com aspereza no último encontro. A atitude seguinte, depois de meses de paralisia, foi pegar uma base já gravada de uma canção que seria oferecida para Ringo e reescrever sua letra em homenagem à Lennon.

Esta faixa, a emotiva “All Those Years Ago”, saiu no novo LP, “Somewhere In England”, em junho de 81, e em um single que seria o último hit de George em 7 anos. Um tanto deslocada em relação ao ritmo rock and roll da faixa, a letra diz: “Sempre me guiei por você (...) você sempre foi o motor de nossas alegrias”.

O restante de “Somewhere In England” não desapontou, embora tenha sido considerado mais fraco que o LP anterior. As melhores faixas são a linda “Life Itself” (um retorno aos temas em que a religiosidade se sobressai), cuja melodia seguia o riff inicial de guitarra, como de costume; “Teardrops”, uma despretensiosa e romântica balada funkeada; “Writing’s On The Wall”, uma canção típica de Harrison, com referências filosóficas e uma melodia forte embalada por um arranjo cheio de efeitos de sintetizadores, e o country “That Wich I Have Lost”, uma das canções gravadas após a recusa da Warner. George gravou também duas canções de Hoagy Carmichael, um antigo compositor americano que o ex-beatle admirava: “Honk Kong Blues” e “Baltimore Oriole”, outros bons momentos do disco. No entanto, a versão original do LP acabou circulando no mercado pirata algum tempo depois, quando se teve a oportunidade de avaliar as canções rejeitadas pela Warner. Assim, torna-se incompreensível a exclusão da excelente “Flying Hour” (originalmente gravada ainda antes para o “George Harrison”), ao passo que a horrenda “Save The World” entrou na edição final. O mesmo pode-se dizer das outras ‘renegadas’: “Lay His Head”, que só apareceria oficialmente como lado B de um single anos depois; “Tears of The World”, que é um daqueles temas mais complexos, com mudanças harmônicas inusitadas interessantes; e “Sat Singing”, uma canção comum, sem maiores referências.

Apesar de todos esses fatores, o álbum teve uma boa receptividade, muito em função do single com “All Those Years Ago”. Isso, no entanto, não foi o suficiente para impedir que Harrison se aborrecesse com a gravadora e se desiludisse novamente com o mundo da musica popular. Depois de um ano, em outubro de 1982, ele lançou “Gone Troppo” de surpresa, sem promovê-lo, fato que também ganhou a indiferença da Warner.

Esse álbum morno e pouco inspirado encerrou de forma melancólica um período de impulsos positivos na carreira de George. Havia até um rock vibrante com teclados bem ao sabor da new wave que abria o disco, “Wake Up My Love”, mas a canção parecia tão forçada e descaracterizada, que seu single nem chegou a aparecer entre os top 50 dos charts. As melhores faixas deste disco são “That’s The Way it Goes” , um tema com uma melodia simples que se alterna com solos de slide guitar (A letra, de novo, foi inspirada na bronca de George com a mídia: "Há um homem falando no rádio/o que ele está dizendo eu realmente não sei/ mas me parece que ele perdeu algumas bugigangas e quinquilharias/ sua atenção e capacidade de observação/ ele está com medo, eu sei/ e assim a coisa vai...") e a excelente “Mystical One”, uma auto-avaliação bastante despojada de George: "Aquele místico que eu conhecia está de volta/ acalmando-me com olhos que lembram gotas de chuva/ tocando-me/ e deixando doce o meu coração", além de citar a espiritualidade e a música como fatores imprescindíveis dentro de suas características pessoais: "Você respondeu às minhas preces mais profundas/ com uma canção". Outros temas razoáveis apareceram no disco, cuja produção valorizou em demasia os arranjos de teclados e sintetizadores, relegando a guitarra de Harrison ao segundo plano. O álbum passou batido pela imprensa e público, encerrando quase que anonimamente mais uma fase da carreira do guitarrista.

Revoltado com a máquina do pop e com a gravadora Warner, George desapareceria de cena mais uma vez, alternando seu tempo entre férias em sua propriedade no Havaí e o escritório de sua “Handmade Films” em Londres, além de viagens para a América.. Este exílio da musica duraria quase 4 anos, sendo quebrado apenas por esporádicas sessões de gravação no F.P.H.O.T.S. e um programa de TV em homenagem à Carl Perkins em outubro de 1985 (primeira aparição ao vivo de Harrison em 11 anos!). Ele não deixaria de compor, mas se recusaria terminantemente a lançar um novo disco, alegando que não concordava com os métodos das gravadoras para promoverem seus contratados. Quando descobriu que haviam lançado um single na América com “I Don’t Wanna Do It” –canção de Dylan que ele havia gravado para o filme “Porky’s Revenge” em 84- ficou enfurecido. No começo de 86, de cabelos curtos e uma cara mais envelhecida e séria (estava com 43 anos), George voltou a aparecer pela mídia, pois estava começando a produzir um filme para o casal Madonna e Sean Penn, “Shangai Surprise”. Quando as filmagens estavam em fase final, ele resolveu compor para a trilha da fita, usando algumas novas canções. No entanto, com o fracasso de bilheteria que se seguiu ao lançamento do filme, no final do mesmo ano, um possível álbum com os seus temas foi suspenso. O fiasco do longa –que teve uma complicada filmagem, repleta de brigas e estrelismos delirantes do casalzinho e que exigiram a intermediação de Harrison- acelerou, desta vez, o seu desencanto com a produção de filmes. Percebe-se, assim, que o fracasso comercial de suas produções –fossem elas de qualquer natureza- desanimavam-no demais.


A VOLTA PARA O SUCESSO

O contato com as sessões de gravação para “Shangai Surprise” acabou despertando uma súbita vontade em Harrison de voltar a gravar mais canções inéditas que tinha em sua gaveta. O longo sumiço de 4 anos estava prestes a se encerrar; a recente amizade e a admiração de George por Jeff Lyne fez com que o ex-beatle convidasse o antigo líder da ELO para produzir um novo álbum com ele. Assim resolvido, as gravações no estúdio de Friar Park se iniciaram em meados de 1987, com as participações de Ringo, Jim Keltner, Elton John, Eric Clapton e Ray Cooper, entre outros. Com Lyne, Harrison finalizou antigas canções e voltou à antiga forma. Resolvera ceder à Warner, que em troca de algumas sugestões aceitas pelo ex-beatle, prometeu promover o novo disco com alarde e alguns milhões de dólares. As pazes estavam seladas e a volta de George ao topo praticamente garantida.

Em 1987, a musica popular anglo-americana vivia uma crise intensa de criatividade. O punk e a new wave já há muito haviam sido devidamente absorvidos pela máquina de consumo do mercado fonográfico, e vários de seus principais artistas já estavam na velha ciranda do comodismo e das armadilhas do estrelato. Com isso, e também com o incremento do CD como espaço físico de intermediação e consumo, a indústria musical viu-se na necessidade de relançar antigos catálogos de ícones pop das décadas anteriores para realimentar suas engrenagens. Os Beatles tiveram todos os seus álbuns lançados em CD, assim como os Stones, Dylan, o Led Zeppelin, The Who, etc, chegando novamente às paradas de sucessos, impulsionando uma grande onda de nostalgia. Grupos como o XTC e tantos outros gravaram homenagens ao rock psicodélico, fazendo com que muitos artistas jovens como os Stones Roses, e alguns já nem tão novatos como Elvis Costello retomassem a linha do rock bem acabado de antigamente. Veteranos como Peter Gabriel, Eric Clapton e Phil Collins conheceram nesta ocasião um sucesso jamais atingido antes, com cifras milionárias de vendagens de CDs e LPs. O grupo Dire Straits, com seu country-rock inspirado em Dylan e Clapton, havia vendido milhões de cópias com o disco “Brothers In Arms”. O momento mostrava-se propício ao retorno dos medalhões, e George Harrison sabia disso. Empolgado, ele venceu seu temor e apareceu no “Prince’s Trust” daquele ano, ao lado de Ringo, Clapton, Lyne e Phil Collins, para tocar duas grandiosas versões de “While My Guitar Gently Weeps” e “Here Comes The Sun”.

“Cloud Nine” chegou às lojas em outubro de 1987, e alguns meses depois, atingiria uma marca milionária de vendas, chegando ao primeiro lugar por semanas seguidas, e dando ao ex-beatle um single absolutamente vencedor, com uma versão de uma obscura canção americana de 1961, “Got My Mind Set On You”. Foi a canção mais tocada entre dezembro de 87 e fevereiro de 88. Harrisonmania!

O novo álbum de George foi uma conciliação entre a sonoridade moderna e o revival psicodélico, além de um salutar investimento no rock and roll básico. A música-título abre o CD com um duelo de guitarras entre Harrison e Clapton, uma batida firme de bateria de Ringo e uma melodia linear, quase sem ondulações. A letra é assustadoramente madura e propõe uma solução amorosa inédita em temas de George: “Fique comigo e com aquilo que mais te agrada/ o resto, o que te desagrada, só a mim pertence/ assim nos encontraremos em boas vibrações”. “That’s What It Takes” é um tema semi acústico com duas melodias em tons distantes, causando uma impressão de raro e sublime efeito dentro do pop; “Fish On The Sand” é outro rock forte, com apelo fácil e dançante, enquanto “When WeWas Fab” (que ganharia um prêmio de melhor clip no ano seguinte) é uma homenagem aos Beatles e ao tom psicodélico de “I Am The Walrus”, usando até a referência do cello tocado em seu arranjo. “Wreck Of The Hesperus” é um rock parecido com “Savoy Truffle”, enquanto “Devil’s Radio” é nova crítica à mídia “propagadora de boatos”, que usa mais uma vez o rock and roll básico de três acordes; “Someplace Else” –da trilha de Shangai Surprise- é uma balada melodiosa dividida entre o vocal e a guitarra chorosa de George. “This Is Love” é um pop radiofônico agradável, ficando para a bonita “Just For Today” o momento de introspecção tradicional. Este foi, enfim, período daqueles bem esporádicos na carreira de um artista pop, uma intersecção perfeita de seu estilo com as roupagens tecnológicas de última geração e com as exigências do mercado de discos. Havia uma atmosfera carregada de saudosismo e nostalgia, diante da carência de artistas inovadores e jovens.

Aproveitando o seu sucesso e o talento de Lyne para encaixar estilos musicais tradicionais com cores modernas, George resgatou quase que sem querer os amigos Bob Dylan e Roy Orbinson do anonimato de suas então decadentes carreiras para que, junto com Jeff Lyne e o igualmente ressuscitado Tom Petty, formassem os Travelling Wilburys.

A brincadeira nasceu de uma jam session que tinha como objetivo a gravação de uma canção nova de Harrison, “Handle With Care”, para o lado B de um single de “Cloud Nine”. Animados com o resultado, eles resolveram compor pequenas canções durante essas jams, e em pouco tempo possuíam número suficiente de faixas para um álbum inteiro. Lançado em outubro de 88, o “Volume 1”, como foi chamado, seria uma continuação do clima pop empolgante de “Cloud Nine”, com muito rock and roll básico e country-rocks deliciosos, perfeitamente interpretados pelas cinco legendárias vozes e com a marca mais do que evidente de Harrison como seu principal artesão. Não por acaso, as duas músicas que estouraram no rádio tem sua criação mais consistente pelas mãos do ex-beatle: “Handle With Care” e “End Of The Line”. Cada “irmão” Wilbury interpretou um número vocal solo, e o de George foi na popíssima e animada “Heading For The Light”, inteiramente composta por ele. Como detalhe, os cinco músicos usaram pseudônimos no encarte, e suas fotos buscaram parecer bem discretas a ponto de não revelar-lhes a verdadeira identidade. Mesmo assim, o CD vendeu imensamente, permanecendo por meses em primeiro lugar nos dois lados do Atlântico, até aqui no Brasil! Parecia que Harrison havia finalmente voltado para a moda. Sua carreira estava revigorada e renascida. Um feito que Paul McCartney, o beatle que mais sucesso conquistou em sua carreira solo, já não conseguia mais realizar, mesmo com toda a publicidade que costumava utilizar. George estava nas alturas!

Querendo aproveitar a onda favorável, no ano de 89 o guitarrista lançou uma coletânea chamada “The Dark Horse Years, 1976- 1989”, quando buscou resgatar seus antigos hits, mesclando-os com os de “Cloud Nine”, além de 4 novas canções. Infelizmente, essas novas faixas não eram as melhores composições de George, e com exceção de “Cheerdown” –um belo tema composto em parceria com Tom Petty para o filme “Lethal Weapon”- pareciam sobras das sessões do recente disco milionário. Para dissabor de George, esta coletânea não vendeu quase nada, passando batida pelo público.

Em 1990, os Wilburys, sem Roy Orbinson, (que havia falecido pouco depois do lançamento do “Volume 1”), lançaram o segundo CD, batizado ironicamente de “Volume 3”. Apesar de ser um disco igualmente pulsante e ‘para cima’, repleto de excelentes canções e ainda mais pesado que o anterior, “Vol.3” decepcionou nas vendas, ficando distante do sucesso e das vendas do disco anterior. Muitos acreditaram ser a maior aparição de Bob Dylan como principal vocalista um dos motivos para tal fracasso comercial, o que não parece fazer sentido. A canção que ganhou maior contribuição de George é a melhor do álbum: “The Devil’s Been Busy”, um rock pesado e pegajoso. Como de costume, nela George criticava a mídia dos fofoqueiros, começando a parecer sem muita imaginação para mudar o enfoque de suas letras. Sua nova fase de ouro parecia ter chegado ao final. A verdade é que o modelo de Lyne e de sua sonoridade retro/moderna havia se esgotado, mostrando mais uma vez que o consumismo impulsiona a indústria do disco com maior avidez do que a criatividade de seus membros atuantes pode supor.

Harrison gravaria uma participação em um programa de TV na Inglaterra que acabou indo para o ar somente no ano seguinte. Neste programa, ele aparece tocando a musica “Beetween The Devil And The Deep Blue Sea”, de Cab Calloway, acompanhando-se de seu ‘ukelele’. Esta gravação apareceria 10 anos depois no álbum póstumo “Brainwashed”.

Ao topar o convite do colega Eric Clapton para uma pequena série de shows no Japão (ele tinha receios de tocar na América ou na Inglaterra por causa das críticas), George reaprendeu a tocar suas antigas canções dos Beatles, os seus sucessos da década de 70 e os mais recentes, do “Cloud Nine”, apresentando-se durante o mês de dezembro de 1991 com Clapton e sua afiada banda. Essa pequena turnê rendeu muito dinheiro para George e fez enorme sucesso naquele país, provocando até mesmo a velha histeria e um enorme alarde pela imprensa local. Harrison parecia satisfeito e feliz por apresentar-se ao vivo, tocando pela primeira vez determinadas canções, como “Piggies”, “Old Brown Shoe” e “Isn’t it A Pity”, que ganharam versões fiéis aos arranjos originais. A execução musical do grupo foi impecável, mas Harrison parecia inseguro demais em alguns momentos, revelando pouca intimidade com a guitarra e com as linhas melódicas de suas canções. No ano seguinte, lançou um álbum duplo com o show na íntegra, “Live In Japan”, que soou como uma coletânea de greatest hits ao vivo. Em muitos momentos, como em “Something” ou em “Roll Over Beethoven”, os arranjos e a interpretação de Harrison pareciam caricaturais, deixando a desejar em termos de vibração e energia. Um disco que acabaria sendo importante tão somente por ser o único registro de uma turnê de George em vida.

Ele voltaria aos palcos por mais quatro vezes em 1992: a primeira em abril, em Londres, quando realizou um concerto em apoio à uma instituição que se dedicava aos estudos e à prática da meditação transcendental . Reproduziu o mesmo repertório executado no Japão e pareceu um pouco mais seguro, embora desta vez não tenha contado com o apoio da banda de Clapton. Para delírio geral da platéia que lotou o Royal Albert Hall, Ringo subiu ao palco e tocou sua bateria em “While My Guitar Gently Weeps”. A segunda foi uma aparição de surpresa em um show do amigo Carl Perkins, em junho, quando tocou com ele “Everybody’s Trying To Be My Baby”, “Blue Suede Shoes” e “Honey Don’t”; a terceira foi no show comemorativo dos 30 anos de carreira do amigo Bob Dylan, em Nova Iorque, em outubro, quando tocou duas canções do colega: “If Not For You” e “Absolutely Sweet Mary”, além de ter participado em “My Back Pages”. A última foi uma nova aparição de surpresa, desta vez em Los Angeles, no mês de dezembro, quando tocou discretamente sua guitarra e fez alguns back-vocais com Eddie Van Halen num show beneficente que este último organizou. Foi, provavelmente, a última vez que George apareceu ao vivo em um palco.

Assim, 1992 foi um ano agitado: George apareceu várias vezes em programas de TV, sendo que em um deles declarou que estava em vias de começar a gravar um novo álbum, e que depois, sairia em turnê para promovê-lo. De fato, no ano seguinte, ele começaria a gravar algumas novas canções em F.P.H.O.T.S., mas segundo se cogitou na ocasião, teria havido algum problema técnico no estúdio caseiro de Harrison. Bobagem. Na verdade, o projeto “Anthology” dos Beatles, que corria em absoluto sigilo já há meses- fez com que George optasse pelo adiamento de seu novo disco. Tais gravações devem ter sido aproveitadas, com certeza, para o “Brainwashed”. Encerrando o ano em grande estilo, George recebeu da Billboard o premio “Billboard Century Award”, por suas contribuições ao mundo da música.

Na América, o “grunge” ganharia destaque ao devolver para o rock a selvageria vivida pelos punks 14 anos antes. O ciclo parecia se repetir. Não se tratava de um movimento tão criativo e impulsivo como aquele propagado pela new wave e pelo punk, mas certamente representava novo alento para a indústria do disco e também para a renovação do rock enquanto expressão de jovens talentos como Kurt Cobain, por exemplo. Mais uma vez, os velhos mestres se viam na necessidade de renovação e reformulação de suas posturas. Mas muitos deles preferiram buscar seu gás no passado.

Ao longo dos 22 anos transcorridos entre o fim dos Fab Four até este período, George sempre se referiu aos Beatles de forma um tanto rancorosa, como se eles significassem a pior fase de sua vida. No Japão, ele chegou a dizer : “Estou mais jovem agora, estou mais feliz, estou cantando e tocando melhor do que nunca”. Exageros a parte, tal declaração repetia uma postura já há muito tempo evidente: Harrison declarava que seu passado como beatle já estava superado e que lhe trazia más lembranças, que o que lhe importava era o momento presente. Acontece que o tal momento presente não estava lá muito agradável -pelo menos no que dizia respeito a dinheiro- apesar das declarações em contrário.

Comentava-se, exageradamente, que o ex-beatle estava falido, pois havia descoberto um rombo milionário aplicado por seu ex-sócio na “Handmade Films”, Denis O’brien. George entrou com um processo pedindo uma indenização de milhões de dólares. Ele venceria a batalha em 1996, quando conseguiu que os tribunais condenassem O’brien a pagar cerca de 11 milhões de dólares ao guitarrista. A “Handmade” foi vendida em 94, por 60 milhões, depois de 15 anos de atividades e 25 filmes.

Se estava mesmo a beira da bancarrota ninguém pode afirmar com certeza, mas coincidentemente, George Harrison -que renegava seu antigo grupo- passou a dedicar-se mais aos relançamentos e projetos envolvendo material antigo e inédito dos Beatles. Longas entrevistas sobre a banda estavam sendo gravadas por ele, Paul e Ringo; Martin havia sido requisitado para remixar e selecionar takes alternativos e faixas inéditas dos Fabs; as coletâneas “vermelha” e “azul” foram lançadas com preço abusivo no mercado em 1993; em 1994, foi a vez do álbum duplo “The Beatles Live At BBC” chegar às lojas, enquanto os “Threeatles” Paul, George e Ringo, acompanhados por Jeff Lyne, gravavam “Free As A Bird” e logo adiante, “Real Love”, ambas canções de John Lennon. Estas faixas foram cedidas por Yoko ao projeto que chegaria no mercado sob forma de três CDs duplos, uma série de TV e uma caixa com várias fitas em VHS entre 1995 e 1996. Claro, milhões e milhões de dólares foram lucrados nesta empreitada ‘beatle’, que fez com que o grupo estivesse na mídia por dois anos com incrível destaque e sucesso. Ao contrário de Ringo e Paul, que mantiveram suas carreiras solo paralelamente a todo esse revival, George acomodou-se de vez, deitando sobre o ouro de seu ‘passado renegado’ e dedicando-se apenas às eventuais produções de discos e esporádicas sessões de gravação de algumas canções próprias em sua mansão.

Uma dessas produções foi o álbum “Chants Of India”, de Ravi Shankar, que ele produziu em 1996. Harrison tocou um pouco de violão e fez alguns discretos vocais no disco. No ano seguinte, quando lançaram o material, George e Shankar foram para a TV para promover o álbum, quando além de conceder entrevistas, um barbado e cabeludo Harrison deu valiosas canjas no violão, tocando “All Things Must Pass”, “If You Belonged To Me” (dos Wilburys) e “Any Road” (até então inédita). Foi neste dia, 14 de maio de 1997, que George tocou pela última vez em público durante sua vida.

Vários boatos passaram a cercar o nome de George a partir desta fase. Uns diziam respeito a um possível novo álbum que ele estaria finalizando; outros falavam de um retorno dos Travelling Wilburys. Mas os boatos mais assustadores, e que infelizmente eram os verdadeiros, diziam respeito a um câncer que Harrison tinha descoberto em sua garganta. A batalha seria longa e fatal, mas por volta de 1998 a doença parecia ter sido curada. Esses dias foram sombrios, repletos de acontecimentos esquisitos e tensos. George fez declarações nada elogiosas sobre o novo xodó da imprensa musical britânica, o grupo Oásis. “Eles não são nada interessantes. São legais para quem tem 14 anos de idade. Eu prefiro ouvir Dylan. Os Beatles, por exemplo, agradam quem tem de 7 a 77 anos. Será que alguém vai se lembrar do Oásis daqui a 30 anos? Será que alguém vai falar no U2? Uma coisa que me deixa satisfeito é que nós (Beatles) seremos lembrados para sempre”. Bono Vox e os irmãos Gallagher responderam com declarações nada suaves e gentis, não perdoando a cítrica honestidade de George. Numa entrevista para a Billboard, Harrison declarou que “não ouvia nada de música dos outros em casa nem em lugar nenhum.” E que fazia “questão de não ouvir nada”. Parecia aborrecido e um tanto revoltado. Quando voltou-se a se falar no relançamento do disco dos Beatles gravado em Hamburgo, no Star Club, ele foi quem mais se revoltou com a notícia. Imediatamente partiu para os tribunais para impedir o lançamento –como aconteceu em 1977, quando o álbum saiu pela primeira vez - e foi filmado tentando agredir um fotógrafo na saída de uma destas sessões do julgamento de seu pedido.

O fato mais estranho ainda aconteceria no natal de 1999. Um fã obcecado e histérico invadiu a mansão de Friar Park durante a noite, agarrou Harrison e o jogou no chão, ferindo-o superficialmente em um dos pulmões. George só foi salvo da morte porque Olívia golpeou o invasor com um abajur, fazendo com que ele desmaiasse até a polícia chegar. Para completar o quadro de sucessivos acontecimentos sombrios, constatou-se logo a seguir que o câncer havia tomado os pulmões de George. Viajar para a América e pela Europa atrás de hospitais e especialistas na doença passou a ser uma perversa e cansativa rotina para Harrison. Traumatizado pela agressão sofrida, ele passou a entrar em conflito com vizinhos da mansão em Friar Park, entrando na justiça para impedir acessos públicos que pudessem tirar-lhe a privacidade em seu jardim. Resolveu, então, passar a maior parte de seu tempo em sua casa no Havaí. Uma birra de um enjoado senhor de então 57 anos, ou um homem atormentado por constantes problemas relacionados à sua fama e pela doença? De qualquer maneira, os temores antigos de George com sua imagem de “beatle” pareciam confirmar-se.

Em 2000, já abatido pelo câncer, ele ainda encontrou forças para remasterizar e relançar o clássico “All Things Must Pass” em um CD duplo, com algumas bônus tracks. Mas apenas três dessas oferendas extras conseguiram chamar a atenção dos fãs: a linda “I Live For You”, que inexplicavelmente ficou fora da edição original do álbum em 1970, a versão acústica de “Let It Down” (bem mais reveladora da beleza desta canção do que a gravação embolada original) e a nova versão de “My Sweet Lord”, que ganhou vocal e slide guitar novos. No entanto, esta nova “Lord” está longe demais do brilho e do carisma da gravação original. Nestas alturas, o timbre da slide de George parecia revelar a estagnação de sua técnica de tocar, transformando o som de seu instrumento em algo um tanto caricato e antiquado. Chato, mesmo.

Harrison sabia que dificilmente escaparia da morte. Toda a sua espiritualidade parecia confortar-lhe nestes dias difíceis e angustiantes. A última canção de sua autoria que registrou em vida foi “Horse To The Water”, um tema em parceria com o filho Dhani que ele gravou para uma coletânea organizada pelo amigo Jools Holland, em outubro de 2001. Surpreendentemente swingada e com solos típicos de slide, Harrison realizou um vocal perfeito para alguém em suas condições. Sua última canção foi utilizada pelo compositor para uma espécie de auto-crítica sobre seu vícios , principalmente o de fumar cigarros: “Alguém que eu amo tinha um problema/ algumas pessoas buscam para isso alguma verdade/ mas ele preferia um copo de whisky/ eu lhe disse, ‘ei, rapaz, isso pode te fazer mal’/ ele respondeu ‘tá legal’ enquanto pegava uma outra garrafa”. Como uma última demonstração de seu humor sarcástico e de sua ironia aguda, ele criou uma editora especialmente para controlar os direitos dessa faixa: RIP Music. RIP, para quem não sabe, é uma sigla usada na Inglaterra para se referir às pessoas mortas.

Em 29 de novembro, depois de sucessivas internações e tentativas frustradas, George Harrison veio a falecer. O câncer havia se espalhado, atingindo seu cérebro. Em seu leito, recebeu por inúmeras vezes as visitas dos velhos parceiros Paul e Ringo. Há anos que Harrison havia recuperado sua relação com McCartney, por quem tinha grande respeito e admiração, o mesmo acontecendo da parte de Paul. Talvez uma de suas grandes frustações em relação aos Beatles foi o fato de Paul –que era amigo de George antes que conhecessem John- ter se ligado à Lennon e com esse adquirido cumplicidade, amizade e parceria musical revolucionárias. Provavelmente, ele se sentia rejeitado por Paul e, posteriormente, por Lennon. Depois, tais sentimentos cresceram quando sentiu-se coibido pelos dois em relação à sua atuação como compositor. As rusgas sempre existiram, mas Macca estava lá, ao seu lado, em seu leito de morte. A amizade e o amor falaram mais alto.

Em novembro de 2002, um ano após sua passagem, o tão esperado novo álbum de George chegou às lojas, graças ao trabalho do filho Dhani e de outros velhos parceiros como Jeff Lyne e Jim Keltner. Ouvir canções suaves e melódicas como “Pisces Fish” e “Any Road” foi tão gratificante quanto ouvir os velhos LPs dos anos 70 e o “Cloud Nine”. “Stuck Inside A Cloud” é uma de suas canções mais bonitas e sensíveis, um emocionante depoimento de um homem que sabia estar prematuramente condenado à morte, mas que insistia em preservar a compreensão: “Nunca me senti tão louco/ mas ao mesmo tempo nunca estive tão seguro/ gostaria de ter uma resposta/ mas não tenho sequer a minha cura”. “Rising Sun” e a instrumental “Marwa Blues” são outros dois grandes momentos do disco, transbordando melancolia em melodias delicadas e bonitas.

A música título é a velha crítica de George para a sociedade moderna ganhando campo em uma musica inspirada em Dylan, enquanto “P2 Vatican Blues” é um rock que destila o sarcasmo de George em cima da igreja católica. “Looking For My Life” lembra um pouco “Fish On The Sand”, só que a letra é a confissão de medo e perplexidade de Harrison diante da falibilidade da vida que ele acreditava ser segura (foi composta, talvez, depois do atentado que sofreu em 99). Enfim, “Brainwashed” é um grande disco póstumo, que mostrou um George Harrison despreocupado em soar ‘moderno’ ou em competir com as mais recentes novidades do mercado da música, mas sim em fazer seu som e preservar suas características artísticas mais profundas. É um belo testamento.

Resta-nos, agora, torcer para que Dhani e Olívia tenham mais material inédito de George, já que o relançamento de seus discos pela Dark Horse não trouxe nada de muito novo.

George Harrison foi um artista ímpar. Longe de ser apenas o “quiet one”, foi um musico sensível e de linguagem própria, um compositor inspirado e criativo, membro de uma escola privilegiada de artistas pop que costumavam se orientar pela alma e não apenas pelas necessidades mais imediatas do rentável mercado de discos; em meio ao vendaval revolucionário dos anos 60 e do niilismo destrutivo e cético dos 70, George teve a coragem de assumir-se como um homem espiritualizado, com uma forte personalidade e um bom humor que equilibrava a sua impaciência e nervosismo com o fato de ter sido um beatle. Foi o precursor dos artistas pop que cantavam por causas sociais nobres, como o combate à fome em Bangla-Desh e a preservação da natureza. Era um crítico voraz do consumismo irresponsável e da falta de ética dos meios de comunicação, assim como da frieza e da aspereza humanas.

Certa vez, quando procurava por um CD-player numa loja de eletrônicos na Austrália, Harrison deu azar. Estavam lançando as coletâneas vermelha e azul dos Beatles em CD naquele dia, e o burburinho dos fãs fez com que ele ficasse preso do lado de fora do estabelecimento, irreconhecível pelas pessoas e pelos guardas durões contratados para a ocasião. Um destes guardas virou-se para ele e disse: “Ei, rapaz, você até se parece com um desses caras (Beatles), o George Harrison”. George respondeu com bom humor e simpatia: “Puxa, sempre me dizem que pareço com ele! Que coisa, hein?!”.


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